Carlos parou na frente do balcão da Padaria do Seu Jorge e esperou o movimento passar. Era nove da manhã de quarta, o auge do café da manhã, mas ele sabia que depois das nove e meia o fluxo diminuía.
Seu Jorge secava as mãos no avental branco quando viu Carlos parado ali.
— Cê vai pedir alguma coisa ou vai ficar de portaria? — o padeiro perguntou com um sorriso.
— Preciso falar uma coisa com o senhor.
— Fala.
— Melhor sentado.
Seu Jorge ergueu uma sobrancelha, mas puxou uma cadeira na mesa da calçada. Sentaram. O sol da manhã batia no toldo listrado.
— Então, fala.
Carlos respirou. — O senhor conhece a festa junina do bairro, né?
— Conheço. Todo ano tem.
— Então, a associação de moradores tá organizando esse ano. Eu entrei no grupo. A gente quer fazer uma festa maior, com música, barraca de comida, concurso de quadrilha.
— Bonito. E o que eu tenho a ver com isso?
— A gente queria que o senhor entrasse como patrocinador.
Seu Jorge apoiou os cotovelos na mesa. — Patrocinador como?
— O senhor fornece os salgados e os pães pro evento. A gente coloca a placa da padaria em tudo que é lugar. Barraca, palco, divulgação.
— E eu ganho o quê com isso?
— Visibilidade. Vai ter gente de outros bairros. Gente que não conhece a padaria. Fora que o senhor vai ser citado como apoiador oficial.
Seu Jorge ficou quieto. Passou a mão no queixo.
— Quantos salgados?
— Umas quinhentas unidades. Mais duzentos pães de cachorro-quente.
Ele assobiou. — É uma porrada de massa.
— Por isso vim conversar antes.
O padeiro inclinou a cabeça, avaliando. — E vocês vão colocar meu nome em tudo?
— Em tudo. Até no banner principal.
— Banner principal?
— O que vai ficar na entrada.
Seu Jorge olhou pra dentro da padaria, pros clientes na fila, pro movimento que não parava. Depois voltou pra Carlos.
— Faz o seguinte. Me traz o orçamento por escrito. O que vai ter, quando, onde, quantas pessoas. Aí eu vejo o que dá pra fazer.
— Então o senhor topa?
— To dizendo que vou olhar. Não é sim, não é não. É *vou olhar.*
Carlos riu. — Justo. Amanhã trago o papel.
— Traz. E toma um café antes de ir.
Seu Jorge levantou, serviu um café preto no balcão e estendeu pra ele. Carlos segurou a xícara quente e sentiu o cheiro subir. Não tinha fechado, mas tinha conseguido uma brecha. Já era meio caminho.
*Continua em: 266 — Luísa — Perguntar a ONG sobre voluntariado em eventos*