Uma semana depois do enterro do tio Jorge, a família se reuniu de novo na casa da Dona Lúcia. O clima já não era de velório, mas também não era de festa. Era aquele meio-termo estranho do luto recente, onde ninguém sabe se ri ou se chora.
Luísa ajudava na cozinha quando ouviu a voz da tia Alzira na sala.
— A gente tem que superar. O Jorge não ia querer a gente triste.
Houve um burburinho de concordância.
— É, ele era alegre.
— Vamos lembrar dele com carinho.
— Tem que seguir em frente.
Luísa continuou cortando os tomates. Não disse nada.
—
Mais tarde, sentada na mesa, ela observou. A tia Alzira contava piadas. O primo Vinícius ria alto. A prima Simone falava de trabalho, de viagem, de qualquer coisa que não fosse o tio Jorge.
Todo mundo estava se esforçando para ser normal. Para não falar do elefante na sala.
No canto do sofá, a Dona Lúcia estava quieta. Olhando para o café.
Luísa sentou ao lado dela.
— A senhora tá bem?
— To.
— Pode não estar.
Dona Lúcia olhou para ela.
— Todo mundo acha que a gente tem que superar rápido.
— Eu não acho.
— Eu sei que você não acha. Por isso que eu gosto de você.
Luísa tocou a mão dela.
— Não tem pressa. Não tem certo. O luto é do tamanho que precisar ser.
Dona Lúcia apertou a mão dela de volta. Não disse nada.
—
Na volta para casa, Luísa estava no carro com Carlos.
— A tia Alzira quer que todo mundo supere o tio Jorge em uma semana — ela disse.
— A tia Alzira sempre foi assim. Ela não lida bem com tristeza.
— Mas ela força todo mundo a não lidar também.
— É o jeito dela.
— É um jeito que machuca.
Carlos virou o volante.
— O que você acha que devia ser diferente?
— Sei lá. Mas não é correndo que a gente passa o luto. É passando por ele.
—
No dia seguinte, Luísa mandou uma mensagem para a Dona Lúcia.
*"Dona Lúcia, se a senhora quiser companhia pra ficar quieta, sem precisar conversar, é só falar. Posso levar um café e a gente fica em silêncio."*
A resposta veio meia hora depois:
*"Vem amanhã. O café eu faço."*
—
No sábado, Luísa chegou na casa da Dona Lúcia com um pão de queijo. Elas sentaram na varanda. O café passou. A rua estava quieta.
Elas não falaram do tio Jorge. Não falaram de superação. Não falaram de nada importante.
Mas ficaram juntas.
E às vezes, ficar junto era o suficiente.
*Continua em: 263 — Encomendar salgados para festa*