Como lidar com a perda de entes queridos?

O tio Jorge morreu numa terça-feira de manhã. Irmão da Dona Lúcia. Não estava doente. Ou estava, e ninguém sabia. Um AVC, disseram. Rápido.

Carlos recebeu a notícia no trabalho. Leu a mensagem da Clarinha três vezes antes de processar. *"O tio Jorge morreu."*

Ele pediu para sair mais cedo. No caminho para a casa da mãe, o trânsito parecia mais lento. O rádio tocava uma música que ele não reconheceu.

Quando chegou, a mãe estava na sala, sentada no sofá, o telefone na mão. Ela não estava chorando. Estava com o olhar parado, como se processar a notícia levasse mais tempo do que o normal.

— Mãe.

Ela olhou para ele.

— O Jorge se foi.

— Eu sei.

Ele sentou ao lado dela. Não sabia o que dizer. Todas as palavras pareciam pequenas. "Sinto muito." "Força." "Vai ficar tudo bem." Nada disso cabia.

Ele só ficou ao lado dela.

Depois de um tempo, Dona Lúcia falou:

— Ele ligou no sábado. Eu não atendi. Tava fazendo bolo.

— Mãe...

— Se eu soubesse, tinha atendido.

Carlos tocou a mão dela.

— A senhora não sabia.

— Mas se eu tivesse atendido...

— A senhora não sabia.

Ela ficou em silêncio. Depois apoiou a cabeça no ombro dele.

Na quinta, foi o velório. Uma sala com flores, fotos, gente falando baixo. Carlos viu a mãe abraçar os parentes, um por um. Viu ela segurar a mão da viúva. Viu ela olhar o caixão por um longo tempo.

Ele ficou no canto. Luísa estava ao lado dele, a mão entrelaçada na dele.

— Você tá bem? — ela perguntou.

— To pensando no tio Jorge. Ele me ensinou a andar de bicicleta.

— Ele?

— Na rua da casa dele. Eu tinha oito anos. Ele segurava o banco e corria atrás.

Luísa apertou a mão dele.

— Ele deve ter se orgulhado de você.

— Tomara.

Depois do enterro, a família se reuniu na casa da Dona Lúcia. Tinha café, pão de queijo, salgadinhos. As pessoas riam baixo, contavam histórias. Carlos ouviu a Clarinha contar que o tio Jorge dançava forró até não aguentar mais. Ouviu o Beto dizer que o tio Jorge dava os melhores abraços.

No meio da tarde, a mãe chamou ele na cozinha.

— Carlos.

— Oi.

— Obrigada.

— Pelo quê?

— Por ter ficado.

— Eu sempre fico.

— Eu sei. Mas hoje fez diferença.

Ela abraçou ele. Não foi um abraço rápido. Foi um abraço demorado, o tipo de abraço que a gente só dá quando precisa sentir que o outro está ali.

Naquela noite, em casa, Carlos sentou na cama. Luísa estava ao lado.

— Como você se sente? — ela perguntou.

— Cansado. Triste. Mas grato.

— Grato pelo quê?

— Por ter tido ele na minha vida. Por ter aprendido a andar de bicicleta. Por ter ido no velório. Por ter ficado com minha mãe.

Luísa deitou a cabeça no ombro dele.

— Isso é luto.

— O quê?

— É sentir tudo ao mesmo tempo. E ainda assim continuar.

Ele passou o braço em volta dela.

— É. Acho que é isso.

O quarto estava escuro. O Toby pulou na cama e deitou aos pés deles. A noite passou devagar. Mas passou.

*Continua em: livreto-262.md — Luísa — Como lidar com familiares que não aceitam o luto?*