Como contratar um cuidador para os pais?

A Dona Margô caiu.

Não foi uma queda grave. Ela tropeçou no tapete da sala e caiu de lado. Não quebrou nada. Mas ficou com o braço roxo e o orgulho ferido.

Luísa soube no dia seguinte, pela vizinha.

— Sua mãe não quis te ligar pra não preocupar.

Luísa desligou o telefone e ficou parada no meio da sala.

Ela passou a tarde pesquisando. "Cuidador de idosos." "Home care." "Acompanhante para idosos." As opções eram muitas e confusas. Tinha plano, tinha particular, tinha indicação. Tinha valor por hora, por dia, por mês.

Ela ligou para a irmã de uma amiga, que trabalhava com isso.

— Carol, como é que contrata um cuidador?

— Depende. É pra ficar o dia inteiro ou só algumas horas?

— Não sei ainda. Minha mãe é independente, mas tem 62 anos. Caiu essa semana.

— Ela tem plano de saúde?

— Tem.

— Então liga pro plano primeiro. Às vezes eles têm serviço de cuidador domiciliar.

— E se não tiver?

— Procura clínica de home care na sua cidade. Pede referência. E nunca contrata sem entrevistar antes.

— Entrevistar?

— Entrevista. Cuidador vai ficar na casa da sua mãe. Você precisa saber se a pessoa tem paciência, higiene, se sabe cozinhar, se tem curso de primeiros socorros.

Luísa anotou tudo.

Na sexta, ela foi na casa da mãe. Sentou na mesa da cozinha.

— Mãe, a gente precisa conversar.

— Sobre o quê?

— A senhora caiu.

— Não foi nada.

— Foi. A vizinha me ligou.

A mãe desviou o olhar.

— Não quis preocupar você.

— Mas preocupou. E se a senhora tivesse quebrado alguma coisa? E se ninguém estivesse perto?

Ela não respondeu.

— Mãe, eu quero contratar uma cuidadora. Só pra ficar de manhã. Ajudar com as coisas. Fazer companhia.

— Não preciso.

— Precisa.

— Não quero estranha dentro de casa.

— Então a gente procura juntas. Alguém que a senhora goste.

A mãe ficou em silêncio. Depois perguntou:

— E como acha?

No sábado, as duas sentaram no sofá com o celular de Luísa. Pesquisaram clínicas, leram perfis, viram fotos. A Dona Margô rejeitou três candidatas.

— Essa parece muito séria.

— Essa é muito nova.

— Essa usa unha muito grande.

Luísa riu.

— Mãe, a senhora tá escolhendo cuidadora ou namorada pra mim?

— As duas coisas.

Elas riram juntas. No final, acharam uma senhora de 55 anos, a Dona Vera, que tinha 20 anos de experiência e gostava de jogar buraco.

— Buraco? — a Dona Margô perguntou.

— Buraco — a Dona Vera respondeu na entrevista por vídeo.

— Você joga bem?

— Jogo. Mas deixo a paciente ganhar de vez em quando.

— Então você é esperta.

— Tenho que ser. Senão a paciente não gosta de mim.

Dona Margô riu. E na segunda-feira seguinte, Dona Vera começou.

Luísa chegou no fim do primeiro dia e encontrou a mãe na cozinha, rindo de uma história que a cuidadora tinha contado. Tinha bolo no forno. A casa cheirava a café.

— E aí, mãe?

— Ela é boa. Jogamos buraco. Ela deixou eu ganhar duas vezes.

— Ela falou que ia deixar.

— Sei. Mas gostei do disfarce.

Luísa sorriu. Não era sobre controle. Era sobre companhia.

*Continua em: livreto-261.md — Carlos — Como lidar com a perda de entes queridos?*