Carlos estava carregando o peso sozinho há três meses. As visitas à mãe, as compras, os remédios, o banco. Ele fazia tudo. O Beto ligava de vez em quando, perguntava "tudo bem?", mas não aparecia. A Clarinha estava na faculdade, com a desculpa de que não tinha tempo.
Carlos não reclamava. Até que não aguentou mais.
—
Numa quarta-feira, ele saiu do trabalho e foi direto para a casa do Beto. O irmão morava numa casa com quintal, churrasqueira, duas cachorras. Quando Carlos chegou, Beto estava na garagem, mexendo no carro.
— Opa, irmão. O que foi?
— Preciso falar com você.
— Fala.
— Sobre a mãe.
Beto largou a chave inglesa.
— O que tem?
— Ela precisa de cuidado. E eu tô fazendo tudo sozinho.
— Ela não precisa de cuidado. Ela é independente.
— Ela deixou o fogo aceso duas vezes na semana passada.
Beto ficou em silêncio.
— Ela não me disse nada.
— Porque ela não vai dizer. Ela não quer preocupar. Mas a gente precisa ajudar. E eu não dou conta sozinho.
— Mas eu trabalho...
— Eu também. Todo mundo trabalha. Não é sobre parar de trabalhar. É sobre dividir.
Carlos sentou no banco da garagem.
— Beto, eu não tô pedindo favor. Tô pedindo pra você ser irmão.
Beto coçou a nuca.
— O que você quer que eu faça?
— Uma vez por semana, passa lá. Vê se tem comida na geladeira. Pergunta dos remédios. Fica uma hora. Só isso.
— Uma hora?
— Uma hora. É o suficiente pra ela se sentir cuidada.
Beto suspirou.
— Tá bom. Uma hora.
—
Carlos saiu de lá mais leve. Não porque o problema tivesse acabado. Mas porque não era mais só dele.
No dia seguinte, ele ligou para a Clarinha.
— Clarinha, você pode ir na mãe uma vez por semana?
— Mas eu tenho prova...
— Depois da prova. Um sábado. Duas horas. Só pra ver se ela tá bem.
— Ela não gosta quando a gente fica enchendo o saco.
— Ela não gosta. Mas precisa.
A Clarinha ficou em silêncio.
— Tá bom. No sábado depois da prova eu vou.
—
No domingo, Carlos foi visitar a mãe. O Beto tinha passado na quinta e deixado um pote de feijão. A Clarinha tinha ido no sábado e levado uma torta.
Dona Lúcia abriu a porta.
— Tá todo mundo vindo me visitar essa semana. Vocês combinaram?
— Mais ou menos — Carlos respondeu.
— Tô achando que vocês tão preocupados demais.
— Tô preocupado. Mas tô menos preocupado agora que o Beto vem também.
Ela sorriu. Um sorriso pequeno.
— O Beto deixou o feijão. Tá na geladeira.
— Vi.
— E a Clarinha trouxe torta.
— Vi também.
— Vocês são bons filhos.
— A senhora que é boa mãe. A gente só tá aprendendo.
Ela apertou a mão dele. Não disse nada. Mas a mão dela estava quente.
*Continua em: livreto-260.md — Luísa — Como contratar um cuidador para os pais?*