Carlos percebeu que a mãe estava envelhecendo no dia em que ela esqueceu o fogo aceso. Ele chegou na casa dela para visitar e a panela de feijão estava no fogo há horas, a água já tinha secado, o fundo queimado. Dona Lúcia estava na sala, vendo TV, como se nada tivesse acontecido.
— Mãe, a senhora deixou o fogo ligado.
— Deixei?
— Queimou a panela.
Ela foi na cozinha, olhou a panela, fez um gesto de "ai, meu Deus".
— Acho que tô distraída.
Carlos não disse nada. Mas naquela noite, deitado, não conseguiu dormir.
—
Ele começou a reparar. Não era só o fogo. Era a letra miúda dos remédios que ela já não enxergava direito. Era o passo mais lento. Era a comida que ela comprava e deixava estragar na geladeira porque esquecia de comer.
Ele falou com o Beto no telefone.
— A mãe precisa de ajuda. Mas ela não vai aceitar.
— Ela nunca aceita — o Beto respondeu. — Ela acha que a gente tá exagerando.
— E a gente não tá.
— Não. Mas convencer ela é outro problema.
—
No domingo, Carlos foi na casa da mãe com uma sacola de compras. Enquanto guardava as coisas na geladeira, reparou nos prazos de validade. Leite vencido. Iogurte de duas semanas atrás. Ele jogou fora sem falar nada.
— Mãe, a senhora quer que eu venha aqui uma vez por semana pra ajudar com as compras?
— Não precisa. Eu dou conta.
— Eu sei. Mas quero vir.
Ela olhou para ele.
— Você tá preocupado.
— To.
— Não precisa.
— To preocupado do mesmo jeito.
Ela suspirou.
— Tá bom. Vem se quiser.
—
Na terça, Carlos passou na casa da mãe depois do trabalho e encontrou ela no quintal, tentando pendurar a roupa. O braço dela não subia até o varal.
— Deixa que eu penduro — ele disse.
— Eu consigo.
— Mãe, deixa.
Ela baixou o braço. Ele pegou a roupa, pendurou, e sentiu o peso da cesta vazia.
Mais tarde, no carro, ele pensou na mãe. Na panela queimada. No leite vencido. No braço que não subia. Não era sobre uma coisa só. Era sobre todas elas juntas. Era sobre o tempo passando e ele não poder parar.
Ele ligou para Luísa.
— To voltando.
— Tudo bem?
— To pensando na minha mãe.
— O que foi?
— Ela precisa de cuidado. Mas ela não pede. E eu não sei como dar sem fazer ela se sentir incapaz.
Luísa ficou em silêncio.
— Talvez não seja sobre dar — ela disse. — Talvez seja sobre estar.
— Como?
— Estar perto. Não pra resolver, mas pra acompanhar.
Ele virou a chave na ignição.
— É, talvez.
— Amanhã a gente vai lá de novo. Juntos.
— Pode ser.
Ele desligou. O carro pegou. A noite chegava. Ele não sabia como cuidar da mãe sem machucar o orgulho dela. Mas sabia que ia tentar.
*Continua em: livreto-258.md — Luísa — Como lidar com pais que envelhecem e ficam teimosos?*