Como lidar com a ausência de um dos pais?

O pai de Luísa morreu quando ela tinha 23 anos. Foi de repente. Um infarto. Ele estava no escritório, sentado na mesa, e simplesmente não acordou.

Ela não falava muito sobre isso. Não porque fosse um tabu. Mas porque as palavras nunca pareciam suficientes.

No sábado, ela estava na cozinha cortando tomates quando a faca escorregou. Não cortou o dedo, mas o barulho da lâmina na tábua trouxe uma lembrança. O pai dela cortando tomates também. Na cozinha da casa antiga. A mão grande dele segurando o tomate, o jeito que ele lavava a faca depois.

Ela parou. Olhou o tomate na tábua.

— Luísa?

Ela virou. Carlos estava na porta.

— Oi.

— Você tá bem?

— To.

— Você parou no meio do tomate.

Ela olhou para a faca.

— Lembrei do meu pai.

Carlos não disse nada. Só caminhou até ela e colocou a mão no ombro.

— Do que você lembrou?

— Do jeito que ele cortava tomate. Ele cortava em cubos pequenos. Dizia que tomate grande estraga a salada.

Carlos sorriu.

— Ele cozinhava?

— Só salada. Mas fazia bem.

Ela largou a faca. Passou a mão nos olhos.

— O que mais você lembra dele? — Carlos perguntou.

Ela pensou.

— Do cheiro dele. Ele usava um sabonete azul. Depois que ele morreu, eu comprei um igual. Fiquei cheirando no banheiro. Parecia que ele estava perto.

Carlos apertou o ombro dela.

— Você nunca me contou isso.

— Tem coisa que a gente não conta. Não porque esconde. Porque não sabe como.

Na semana seguinte, ela foi visitar a mãe. Dona Margô estava na varanda, com o café. Luísa sentou ao lado.

— Mãe, o que a senhora sente quando pensa no pai?

A mãe demorou para responder.

— Sinto falta. Mas também sinto que ele está aqui. De um jeito diferente.

— Como?

— Nas coisas que ele gostava. No futebol na TV. No cheiro de café. No jeito que você corta tomate.

Luísa sorriu.

— A senhora reparou?

— Claro. Você corta igual ele.

Elas ficaram em silêncio. O sol da tarde iluminava a varanda.

— A senhora acha que um dia passa?

— A falta? Não. Mas a dor muda. Vira uma coisa mais mansa. Uma hora você lembra e dói menos.

Luísa apoiou a cabeça no ombro da mãe.

— Eu queria que ele conhecesse o Carlos.

— Ele conhece.

— Como?

— Porque conhecer não é só estar vivo. É ver quem você escolheu. E ele vê.

Luísa fechou os olhos. Sentiu o sol no rosto. O cheiro do café. A mão da mãe no cabelo dela.

Não era respostas. Era só estar ali.

Na volta para casa, ela mandou uma mensagem para Carlos: *"Obrigada por ter perguntado do meu pai."*

A resposta veio rápido: *"Sempre que quiser falar dele, pode falar."*

Ela leu a mensagem três vezes. Guardou o celular. Olhou pela janela do ônibus. A cidade passava, cheia de gente que também carregava ausências. Mas a dela estava mais leve naquele dia.

*Continua em: livreto-257.md — Carlos — Como lidar com pais idosos que precisam de cuidados?*