Como lidar com a família disfuncional?

Carlos sabia que a família dele tinha problemas. Não era uma daquelas famílias que pareciam perfeitas por fora e desmoronavam por dentro. A dele era desmoronada à vista de todos.

O pai, Seu Antônio, bebia. Não era todo dia. Mas quando bebia, o silêncio ocupava a casa inteira. A Dona Lúcia andava na ponta dos pés. O Beto trancava a porta do quarto. A Clarinha ficava no telefone com as amigas, fingindo que não ouvia o barulho dos copos na pia.

Carlos cresceu achando que isso era normal. Até que saiu de casa e viu que não era.

Quando começou a namorar Luísa, ele demorou para contar. Não porque tivesse vergonha. Mas porque não sabia como explicar.

— Seu pai bebe? — ela perguntou um dia, depois de um telefonema em que ele ficou mais quieto.

— Bebe. Mas não é sempre.

— Há quanto tempo?

— Desde que eu me entendo por gente.

Ela não fez cara de pena. Só perguntou:

— E sua mãe?

— Aguenta.

— Por quê?

— Porque ela acha que é obrigação.

Luísa não disse mais nada. Mas na semana seguinte, ela apareceu com um livro. Carlos olhou a capa.

— O que é isso?

— Um livro. Sobre codependência.

— Você quer que eu leia?

— Quero que você leia, se quiser. Mas comprei pra mim. Pra entender melhor.

Carlos abriu o livro na primeira página. Leu a contracapa. Depois fechou.

— Minha família não é um caso de estudo.

— Não é. Mas talvez você entenda que você não tem que carregar eles sozinho.

No fim de semana, ele foi visitar a mãe. Dona Lúcia estava na cozinha, cortando legumes. Ele sentou na mesa.

— Mãe, o pai bebeu essa semana?

— Bebeu. Na quarta.

— E a senhora?

— O quê?

— Como a senhora fica?

Ela parou de cortar. Olhou para a faca, depois para ele.

— A gente aguenta.

— A senhora não precisa aguentar.

Ela colocou a faca na pia.

— Carlos, eu casei com ele. A vida toda. Não vou terminar agora.

— Não precisa terminar. Mas a senhora pode se apoiar em mim. No Beto. Na Clarinha. A gente não é mais criança.

Dona Lúcia enxugou a mão no avental. Não respondeu. Mas quando Carlos foi embora, ela abraçou ele mais forte do que o normal.

No carro, de volta pra casa, ele pensou na família — no pai que bebia, na mãe que aguentava, no irmão que se trancava no quarto, na irmã que fugia pro telefone. Cada um com seu jeito de sobreviver.

Ele ligou para Luísa no viva-voz.

— Oi.

— Oi. Como foi?

— Foi estranho. Falei com ela sobre o pai.

— E?

— Ela não respondeu. Mas acho que ouviu.

— Isso já é alguma coisa.

— É.

Ele virou na rua deles. O portão do prédio apareceu.

— Luísa?

— Oi?

— Obrigado pelo livro.

— Ainda não leu.

— Vou ler.

Ele desligou e entrou no prédio. Não era sobre consertar a família. Era sobre parar de carregar o peso sozinho.

*Continua em: livreto-256.md — Luísa — Como lidar com a ausência de um dos pais?*