Como guardar rancor de um familiar sem se corroer?

O tio Alberto não foi ao enterro do pai de Luísa. Isso aconteceu há cinco anos. E ele não ligou. Não mandou flores. Não mandou uma mensagem. Nada.

Luísa não esqueceu.

Toda vez que via o tio Alberto num almoço de família, o estômago apertava. Ele chegava, abraçava todo mundo, perguntava da vida, como se nada tivesse acontecido. E ela ficava no canto, com o copo na mão, o silêncio nos dentes.

— Você ainda tá brava com ele? — a mãe perguntou, um dia, no telefone.

— Não to brava.

— Você não fala com ele.

— Eu falo. Dou bom dia e boa noite.

— Isso não é falar.

— É o que ele merece.

Houve um silêncio. Depois a mãe falou baixo:

— Filha, o rancor não faz mal pra ele. Faz mal pra você.

Luísa sabia que a mãe tinha razão. Mas razão e sentimento não moram na mesma casa.

Na semana seguinte, ela encontrou o tio Alberto no supermercado. Ele estava na fila do caixa, com uma cesta de compras pequena. Ela ia passar reto, mas ele viu.

— Luísa! Oi, menina.

— Oi, tio.

Ele sorriu. Ela não.

— Faz tempo que a gente não se vê.

— Faz.

Ele olhou para ela, as compras na esteira.

— Você tá bem?

— To.

Outro silêncio. O caixa passou as compras dele. Ele pagou. Antes de sair, virou.

— Luísa, eu sei que você tem raiva de mim.

Ela não respondeu.

— Eu devia ter ido no enterro. Eu não fui. Não tenho desculpa.

Ela engoliu seco.

— Por que você não foi?

Ele baixou a cabeça.

— Porque eu não sabia o que dizer. E fiquei com medo de ir e não saber o que falar. Aí não fui. Foi covardia.

Luísa ficou parada. Era a primeira vez que ele falava sobre aquilo.

— Eu preferia que você tivesse ido e não falado nada — ela disse. — Preferia você calado do que ausente.

Ele assentiu.

— É. Você tem razão.

Ele pegou as sacolas.

— Se você quiser um dia tomar um café, falar sobre isso... eu tô aqui.

Ele saiu. Luísa ficou na fila, a cesta na mão.

Naquela noite, ela contou para Carlos.

— Ele pediu desculpa?

— Não exatamente. Ele explicou.

— E você aceitou?

— Não sei. Ainda tô processando.

Carlos não disse nada. Só ficou ao lado dela no sofá.

Depois de um tempo, ela falou:

— Acho que o rancor é uma forma de manter ele longe. Mas manter ele longe também me mantém presa.

— Presa a quê?

— Ao dia do enterro. Aos cinco anos atrás.

Carlos tocou a mão dela.

— Você quer soltar?

— Quero. Mas não sei como.

— Talvez não precise saber como. Talvez precise só querer.

Ela deitou a cabeça no ombro dele. O Toby pulou no sofá e deitou no colo dela. Ela passou a mão no pelo do cachorro.

— Amanhã mando mensagem pra ele.

— Manda.

— Mando um café.

Carlos apertou o ombro dela. No dia seguinte, ela mandou: *"Tio, bora naquele café? Sábado?"*

A resposta veio rápido: *"Sim. Onde você quiser."*

Ela leu a mensagem e colocou o celular na mesa. Não estava curada. Mas tinha dado o primeiro passo.

*Continua em: livreto-255.md — Carlos — Como lidar com a família disfuncional?*