Como receber bem os parentes do cônjuge em casa?

Carlos estava no meio da sala quando percebeu que não sabia o nome da prima da Luísa. Ela estava na porta, com um sorriso aberto e uma garrafa de vinho na mão. A prima tinha o mesmo cabelo escuro, o mesmo nariz, o mesmo jeito de inclinar a cabeça. Mas o nome — o nome tinha escapado.

— Carlos, essa é a Letícia — Luísa disse, como se lesse a mente dele.

— Letícia! Claro. Desculpa, é que...

— É que ele é péssimo com nomes — Luísa completou. — Mas o coração é bom.

Letícia riu.

— Relaxa. Eu também esqueço. Semana passada esqueci o nome do meu vizinho.

Carlos riu, aliviado, e estendeu a mão.

— Entra. Bota o vinho na mesa.

Letícia entrou. Olhou o apartamento.

— Que legal! É maior do que eu imaginava.

— É pequeno — Luísa disse. — Mas é nosso.

Carlos foi para a cozinha buscar copos. Enquanto servia o vinho, observou a prima. Ela era mais nova que a Luísa, devia ter uns 25 anos. Falava com as mãos. Olhava os quadros na parede.

— Esse quadro é seu? — ela perguntou para Luísa.

— Meu. Fiz no ano passado.

— Nossa, é lindo.

— Obrigada.

Carlos serviu o vinho e sentou. A conversa fluiu. Letícia trabalhava com RH, estava de mudança para a cidade, ia ficar uns dias na casa da Dona Margô até achar um apartamento.

No meio da conversa, Carlos percebeu que a prima não era uma estranha. Era só alguém que a Luísa gostava. Alguém que ele ainda não conhecia.

Depois que Letícia foi embora, Luísa sentou ao lado dele no sofá.

— Você foi legal.

— Eu só servi vinho.

— Isso é ser legal. Minha prima tava nervosa. Conhecer a casa do namorado da prima é sempre estranho.

— Por quê?

— Porque ela não sabe se você vai ser legal ou tratar ela como intrusa.

— Ela não é intrusa.

— Ela sabe agora.

Carlos ficou em silêncio. Pensou na próxima vez que a família da Luísa aparecesse. Já tinha um plano.

No sábado seguinte, a Dona Margô veio visitar. Carlos abriu a porta com o Toby no colo.

— Dona Margô! Entra. Tem café passado e pão de queijo quente.

— Pão de queijo? Você fez?

— Comprei na padaria. Mas esquentei no forno.

Ela riu. Sentou na mesa. Carlos serviu o café.

— A Luísa falou que a senhora gosta de pão de queijo.

— Gosto.

— E que a senhora toma café com leite.

— Tomo.

— Então tá aqui.

Ele colocou a xícara na frente dela. Dona Margô olhou a xícara, o pão de queijo, a mesa posta.

— Você é um bom anfitrião.

— To aprendendo.

— Aprendeu bem.

Ela mordeu o pão de queijo. Carlos sentou do outro lado. Toby deitou no pé da mesa, esperando migalhas cair.

Luísa apareceu na porta do quarto, ainda de pijama.

— Você já tá servindo café?

— Já.

— Que horas você acordou?

— Sete.

— Sete? Num sábado?

Ele deu de ombros.

— Tradição.

Dona Margô olhou para os dois.

— Esse menino é um achado, Luísa.

— Eu sei, mãe.

Ela sentou e tomou o café. A manhã estava quente. A xícara, cheia. E a casa, pela primeira vez, parecia realmente deles.

*Continua em: livreto-254.md — Luísa — Como guardar rancor de um familiar sem se corroer?*