Luísa acordou no domingo com o sol entrando pela cortina e uma sensação estranha no peito. Não era medo. Era aquela ansiedade específica de quem vai receber a família do namorado pela primeira vez na própria casa.
Ela virou na cama. Carlos ainda dormia.
Na cozinha, ela abriu a geladeira e encarou os ingredientes. Tinha comprado tudo no sábado. Frango, legumes, arroz, farofa, sobremesa. O plano era fazer um almoço simples. Mas a cabeça já estava montando um banquete com pratos que ela nunca tinha feito.
Ela pegou o celular. Ligou para a mãe.
— Mãe.
— Oi, filha. Já acordou?
— Acordei. To nervosa.
— Por quê?
— Vem o Carlos, a mãe dele, a Clarinha, o Beto...
— E daí?
— E daí que é a primeira vez que eles vêm aqui pra almoço. A Dona Lúcia é uma cozinheira de mão cheia. Ela vai provar minha comida e pensar que não presta.
— Luísa.
— O quê?
— Você cozinha bem.
— Não cozinho igual ela.
— Você não precisa cozinhar igual ela. Você precisa cozinhar como você.
Luísa respirou fundo.
— Faz o que você sabe fazer — a mãe continuou. — Não inventa. Você nunca errou um frango assado.
—
Ela desligou e olhou para a geladeira de novo. Pegou o frango. Lavou. Temperou com sal, alho, limão. O básico. O que ela sabia fazer.
Carlos apareceu na porta da cozinha, o cabelo amassado.
— Já começou?
— Já.
— Preciso de ajuda?
— Precisa. Vai na padaria comprar pão. E traz um suco de uva.
— Pode crer.
Ele saiu. A casa ficou quieta. Luísa colocou o frango no forno e começou a lavar os legumes. O movimento a acalmava.
—
Duas horas depois, a campainha tocou. Dona Lúcia entrou primeiro, com um pote de doce na mão.
— Que cheiro bom, Luísa!
— É frango assado.
— Só?
— É.
— Nossa, frango assado. Não tem nada melhor.
A Clarinha entrou atrás, com o Toby no colo. O Beto veio depois, com uma caixa de cerveja.
— Cerveja pra todo mundo! — ele anunciou.
— Beto, é almoço de família — a Clarinha reclamou.
— E família bebe cerveja.
Luísa riu. Botou a mesa. Serviu o arroz, a farofa, os legumes. O frango saiu do forno dourado, crocante.
Na mesa, todo mundo comeu. A Dona Lúcia repetiu o frango.
— Tá muito bom, Luísa. Sério.
— Obrigada.
— É simples, mas é gostoso. Não precisa de firula quando o sabor é bom.
Luísa olhou para o prato. Frango assado, arroz, farofa, legumes. Nada de outro mundo. Mas estava tudo quente, tudo no ponto, tudo feito por ela.
No fim do almoço, enquanto a Clarinha ajudava a lavar a louça, Dona Lúcia sentou no sofá com um café.
— Luísa, vem aqui.
Ela foi.
— Senta.
Sentou.
— Eu sei que você ficou nervosa.
— Um pouco.
— Não precisa. Você fez um almoço gostoso, recebeu bem. Isso é o que importa.
— Obrigada.
— E olha — Dona Lúcia baixou a voz. — Entre a gente, a Clarinha não sabe fritar um ovo. Você já tá na frente.
Luísa sorriu. Olhou para a cozinha, onde a Clarinha lavava os pratos cantando.
— Não conta pra ela que eu falei.
— Segredo.
Dona Lúcia piscou e tomou o café.
*Continua em: livreto-253.md — Carlos — Como receber bem os parentes do cônjuge em casa?*