A ideia nasceu de uma quinta-feira entediante. Carlos estava no trabalho, olhando para a tela, quando pensou: por que não fazer um almoço no domingo? Na casa deles. Ele e a Luísa como anfitriões.
Mandou mensagem para Luísa: *"E se a gente fizer um almoço domingo? Convida sua mãe. Chama a minha. Vem o Beto, a Clarinha."*
A resposta veio na hora: *"Você tá louco?"*
*"Talvez. Mas vai ser bom."*
*"Você sabe cozinhar?"*
*"Sei fazer arroz."*
*"Arroz não é almoço."*
*"Arroz é a base."*
Ela mandou um emoji de olhos revirados. Mas no sábado de manhã, ela já estava na cozinha com uma lista de compras na mão.
—
Carlos descobriu que organizar um almoço para seis pessoas era mais complexo do que ele imaginava. Não era só fazer comida. Era:
— Lista de convidados (fácil)
— Cardápio (difícil, porque a Clarinha não come glúten, o Beto não come carne vermelha, Dona Lúcia não gosta de comida apimentada)
— Bebida (quem bebe vinho, quem bebe refrigerante, quem bebe suco)
— Sobremesa (ninguém concordava)
— Horário (Dona Margô almoça ao meio-dia, a família do Carlos almoça às 13h)
— Quem traz o quê (a mãe dele sempre trazia um doce, a mãe dela sempre trazia salada)
No sábado à noite, Carlos estava na sala com a lista na mão, a cabeça quente.
— Não vai dar certo.
— Dá — Luísa disse, sem tirar os olhos da TV.
— Não dá. A Clarinha não come glúten, minha mãe não come apimentado, sua mãe chega na hora certa e a minha chega meia hora atrasada.
— Isso chama família.
— Isso chama caos.
Ela virou para ele.
— Carlos, ninguém vai avaliar o almoço. Você não é chef. Você é filho, irmão e namorado. Só precisa receber bem.
— Mas...
— Você quer um almoço perfeito ou um almoço gostoso?
Ele pensou.
— Gostoso.
— Então para de planejar e começa a fazer.
—
No domingo, o apartamento cheirava a alho refogado. Carlos estava na cozinha com um avental que a Luísa tinha comprado — preto, com os dizeres "Auxiliar de Cozinha". O arroz estava no ponto. A carne, na panela. A salada, na mesa.
Dona Margô foi a primeira a chegar. No horário.
— Que cheiro bom! — ela disse, entrando com um pote de salada na mão.
— Obrigado — Carlos respondeu, virando o arroz.
— Você quem fez?
— Eu e a Luísa.
— Ela te ensinou?
— Ela tá na supervisão.
Dona Margô riu e foi colocar a salada na mesa.
Vinte minutos depois, a campainha tocou de novo. Era a família do Carlos. Dona Lúcia entrou com uma torta na mão, o Beto com um refrigerante gigante, a Clarinha com o Toby na coleira.
A sala encheu de vozes. A Clarinha soltou o Toby, que correu direto para a cozinha. Dona Lúcia foi atrás, ver a torta. O Beto ligou a TV.
No meio da confusão, Carlos olhou cada um na sala. A mãe dele na cozinha, cortando a torta. A mãe da Luísa na mesa, arrumando os talheres. A Clarinha no chão, brincando com o Toby. O Beto no sofá, reclamando do jogo.
Não era o almoço perfeito. A carne ficou um pouco salgada. O arroz passou do ponto. A torta da Dona Lúcia era doce demais.
Mas todo mundo comeu. Todo mundo riu. E no fim, quando os pratos estavam na pia, Dona Margô virou para Carlos:
— Vem almoçar na minha casa no domingo que vem?
— Claro.
— Então fechou.
Ela apertou o ombro dele e foi embora.
Carlos ficou na porta, o Toby ao lado, vendo as duas famílias se despedirem na calçada. A rua estava quieta. A tarde, dourada.
— Deu certo — Luísa disse atrás dele.
— Deu.
Ele sorriu e fechou a porta.
*Continua em: livreto-252.md — Luísa — Como receber a família para um almoço sem stress?*