Beto sentou com o caderno. Uma caneta. O quarto silencioso.
Ele queria escrever uma carta pro filho. Algo que ele pudesse ler quando crescesse.
Começou:
*Antônio,*
*Você tá dormindo agora. Dois anos. A mão ainda cabe inteira na minha. Quando você ler isso, vai ser maior.*
Ele parou. Olhou pro teto. Continuou:
*Quando descobri que você ia chegar, eu tive medo. Medo de não ser bom o suficiente. Medo de repetir erros. Medo de não saber te amar do jeito que você merece.*
*Mas aí você chegou. E o amor veio sem eu pedir.*
Ele escreveu sobre o parto. Sobre o primeiro choro. Sobre a primeira noite em casa. Sobre cada descoberta.
*Você me ensinou que paciência se aprende. Que amor não tem limite. Que ser pai é estar presente, mesmo quando não sabe o que fazer.*
*Espero que você seja mais corajoso que eu. Mais paciente. Mais generoso.*
*Mas, acima de tudo, espero que você saiba que foi desejado. Que sua mãe e eu te amamos antes mesmo de você existir.*
Ele assinou:
*Com todo amor do mundo,*
*Papai.*
Dobrou a carta. Guardou no envelope.
— Terminou? — Clarinha perguntou da porta.
— Terminei.
— Pode ler?
— Depois. — Ele guardou. — Quando ele tiver idade.
— Quantos anos?
— Não sei. Quando precisar.
Ela abraçou ele.
— Ele vai amar.
— Tomara.
— Vai.
— Obrigado.
— Por nada.
— Por ser a mãe dele.
— Por ser o pai.
*Continua em: livreto-247.md — Primeira consulta de 1 ano*