O bebê estava dormindo. Eles estavam no sofá, um silêncio raro.
— Lembra como a gente era antes? — Clarinha perguntou.
— Antes do quê?
— Antes dele.
Beto pensou.
— A gente dormia.
— Dormia.
— Saía.
— Saía.
— Via filme inteiro.
— Inteiro.
— Conversava sobre coisas que não fossem cocô.
Ela riu.
— É. A gente mudou.
— Mudou.
— Pra melhor?
Ele pensou de novo.
— A gente perdeu algumas coisas.
— Muitas.
— Mas ganhou outras.
— Quais?
— Ele. — Beto apontou pro quarto. — Ganhou ele.
— É.
— E a versão da gente que cuida dele.
— Que versão?
— A gente que acorda de madrugada. Que troca fralda. Que canta música infantil.
— A gente mais cansada.
— Mas mais completa.
Ela apoiou a cabeça nele.
— Sabe o que eu mais sinto falta?
— O quê?
— De ficar assim. Sem fazer nada.
— A gente tá fazendo nada agora.
— É. Mas é raro.
— É.
— Você acha que um dia a gente volta a ser o que era?
— Não. — Ele apertou a mão dela. — Mas a gente pode ser uma versão nova.
— Versão dois ponto zero?
— Com atualização de segurança.
Ela riu.
— Você é bobo.
— Bobo e pai.
— Bobo, pai e marido.
— Três em um.
— Promoção.
Ele beijou ela.
— A gente vai ficar bem.
— Vai.
— Porque a gente ainda é a gente.
— Só que com um extra.
— Um extra pequeno que cresce.
— E que muda tudo.
— Mas pra melhor.
— Pra melhor.
O silêncio voltou. Mas agora era um silêncio compartilhado.
*Continua em: livreto-246.md — Beto escrever carta pro filho(a)*