Beto estava eufórico.
— Ele falou papai. Eu ouvi.
— Ele falou?
— Falou. Claro. Papai.
— Eu acho que ele falou "mamãe" ontem.
— Ontem? — Beto parou. — Ontem ele não falou nada.
— Falou sim. Eu tava dando banho.
— Isso não conta.
— Conta sim. Primeira palavra é primeira palavra.
— Mas eu ouvi primeiro.
— Eu ouvi antes.
— Quando?
— Ontem.
— Ontem não vale. Hoje eu ouvi claramente.
— Clarinha?
— Mamãe. Ele falou mamãe.
— Falou não.
— Falou.
Ela pegou o bebê.
— Antônio, fala mamãe.
O bebê olhou.
— Ma.
— Tá vendo? — ela disse.
— Isso é som aleatório.
— É palavra.
— Não é.
— É.
Eles riram.
— Vamos fazer um acordo — Beto disse.
— Que acordo?
— A primeira palavra oficial é a que a gente ouvir junto.
— E se a gente nunca ouvir junto?
— Aí a gente briga.
— A vida inteira?
— A vida inteira.
Ela beijou ele.
— Tá bem. Mas eu ouvi primeiro.
— Não ouviu.
— Ouvi.
O bebê olhou os dois.
— Pa.
Beto arregalou os olhos.
— Ouviu?
— Ouvi.
— Agora foi junto.
— Foi junto.
— Primeira palavra oficial: papai.
— Papai.
— Mas ainda acho que ele falou mamãe primeiro.
— Não falou.
— Falou.
— Tá bem. — Ele riu. — Vamos deixar em aberto.
— Em aberto.
— Até a próxima palavra.
— A próxima vai ser mamãe.
— Vai ser papai.
— Aposta?
— Aposta.
*Continua em: livreto-245.md — Os dois olharem pra trás e verem o quanto mudaram*