A licença-maternidade tinha acabado. Clarinha arrumava a bolsa pra voltar ao trabalho.
— Tá nervosa? — Beto perguntou.
— Tô.
— Com o quê?
— Com tudo. O trabalho. Deixar o bebê. Se ele vai sentir minha falta.
— Ele vai sentir. Mas a Dona Cida cuida bem.
— Eu sei.
Ela passou a mão no rosto do bebê.
— Mamãe vai trabalhar. Mas volta.
O bebê sorriu.
— Ele não entende — ela disse.
— Entende.
— Não entende que vou ficar fora o dia inteiro.
— Sabe que você volta.
— Como você sabe?
— Porque ele confia em você.
Ela abraçou o bebê. Queria ficar ali pra sempre.
— Amor — Beto disse. — Se você não quiser voltar…
— Preciso.
— Precisa?
— Preciso lembrar quem eu sou. Fora de casa. Fora da maternidade.
— Então vai.
— É isso.
— É.
Ela se arrumou. Vestiu uma roupa de trabalho. Olhou no espelho.
— Cadê a Clarinha de antes?
— Ali. — Beto apontou pro espelho. — Com um pouco mais de história.
Ela sorriu.
— Tô pronta.
— Tô aqui.
No carro, ela ligou pra Dona Cida.
— Ele mamou?
— Mamou.
— Dormiu?
— Dormiu.
— Tá bem?
— Tá bem. Vai trabalhar tranquila.
Ela desligou. Respirou fundo. Ligou o carro.
Dirigiu pro trabalho. A cada quilômetro, um pedaço do coração ficava em casa.
*Continua em: livreto-235.md — Bebê doente - primeira noite no hospital*