Beto notava que Clarinha não se olhava mais no espelho. Ela evitava. Passava rápido.
Ele começou a fazer pequenas coisas.
— Amor.
— Fala.
— Vem aqui.
Ela foi, o bebê no colo.
— O que foi?
— Nada. Só quero ver você.
— Me ver?
— É.
Ela revirou os olhos.
— Beto, eu tô de pijama, cabelo bagunçado, olheira até o queixo.
— Tá linda.
— Para.
— Tô falando sério.
Ela suspirou.
No dia seguinte, ele comprou um vestido novo. Ela abriu a sacola.
— O que é isso?
— Presente.
— Beto, a gente não pode gastar.
— Tava em promoção.
— É bonito.
— Experimenta.
Ela experimentou. Serviu. O vestido valorizava a cintura.
— Gostou? — ele perguntou.
— Gostei.
— Então usa.
— Pra quê?
— Pra sair. Pra jantar. Pra ficar em casa. Tanto faz.
Ela olhou no espelho.
— Me sinto bonita.
— Você é bonita.
— Com esse vestido.
— Sem ele também.
Ela virou.
— Você não cansa de falar isso?
— Não. — Ele beijou a testa dela. — Enquanto você não acreditar, vou continuar falando.
— E quando eu acreditar?
— Aí vou falar também.
Ela abraçou ele.
— Obrigada.
— Por nada.
— Por me lembrar.
— Sempre.
*Continua em: livreto-232.md — Primeiro passeio no parque com o bebê*