O bebê não dormia.
Não era exagero. Eram três semanas de noites acordados. O bebê chorava, mamava, dormia vinte minutos, acordava, chorava de novo.
— Ele não dorme — Clarinha disse, os olhos fundos.
— Ele dorme. Só não dorme seguido.
— É a mesma coisa.
Beto olhou pro relógio. Quatro da manhã.
— Deixa comigo.
Ele pegou o bebê, colocou no sling. Começou a andar pela sala.
Passo um. Passo dois. O bebê chorava.
— Calma, filho. Papai tá aqui.
Balançava. Cantava baixinho. Andava.
O choro foi diminuindo.
— Isso. Fecha os olhos.
O bebê bocejou. Os olhos pesaram.
— Isso. Vai.
O bebê dormiu.
Beto continuou andando. Não ia arriscar colocar no berço e acordar.
— Ele dormiu? — Clarinha perguntou, sonolenta.
— Dormiu.
— Vem deitar.
— Não posso. Se eu parar, ele acorda.
— Então anda com ele.
— Ando.
Ele continuou. Uma hora. Duas. Até o sol nascer.
Quando Clarinha acordou, encontrou os dois no sofá. Beto sentado, o bebê no sling, os dois dormindo.
Ela sorriu. Coberta os dois com a manta.
— Meus dois guerreiros.
Beto abriu um olho.
— Bom dia.
— Dormiu?
— O bebê sim. Eu nem tanto.
— Trocamos hoje.
— Trocamos.
A noite tinha sido dura. Mas eles sobreviveram.
*Continua em: livreto-228.md — Clarinha com baby blues / depressão pós-parto*