A casa estava silenciosa. O bebê dormia. Beto tinha ido trabalhar. Clarinha sentou no sofá e sentiu o peso do silêncio.
Ela tinha passado a manhã inteira fazendo a mesma coisa: amamentar, trocar, ninar, repetir. Sozinha.
Ligou pra Luísa.
— Alô?
— Luísa.
— Oi! Tudo bem?
— Não sei.
— O que foi?
— Acho que tô maluca.
— Maluca por quê?
— Porque eu tô sozinha o dia inteiro. Só eu e o bebê. E eu amo ele, mas…
— Mas?
— Mas parece que eu desapareci. Antes eu trabalhava, conversava, existia. Agora sou só mãe.
Luísa ficou em silêncio.
— Isso é normal — ela disse.
— É?
— É. Aconteceu comigo quando o Miguel nasceu. Você se sente uma ilha.
— E passa?
— Passa. Quando você volta a ter um tempo pra você. Quando o bebê cresce um pouco.
— E até lá?
— Até lá você me liga. Todos os dias, se precisar. Você não tá sozinha.
Clarinha enxugou os olhos.
— Obrigada.
— De nada. E mais uma coisa.
— Fala.
— Se precisar sair de casa, mesmo que seja pra dar uma volta no quarteirão, avisa. Vou aí, fico com o bebê, você respira.
— Sério?
— Sério.
Clarinha respirou fundo.
— Talvez eu precise.
— Então tô indo.
Desligou. Olhou pro bebê dormindo. Não estava mais sozinha.
*Continua em: livreto-221.md — Os dois descobrirem que criança não vem com manual*