A licença-paternidade de Beto tinha acabado. Vinte dias em casa, mergulhado na vida com o bebê. Agora era segunda-feira.
Ele se arrumou devagar. Olhou pro berço.
— Vou sentir falta.
— Você vai trabalhar — Clarinha disse.
— Eu sei.
Ele pegou o bebê no colo. Olhou o rostinho.
— Papai vai trabalhar, pequeno. Mas volta. Sempre volta.
O bebê abriu os olhos.
— Tá vendo? Ele me entende.
— Ele tem cinco dias, Beto.
— Mas entende.
Ele beijou a testa do bebê. Beijou Clarinha.
— Qualquer coisa, liga.
— Vou ligar.
— Sério. Qualquer coisa.
— Beto, vai.
No carro, ele ficou sentado um minuto antes de ligar o motor. Olhou a casa pelo retrovisor. A casa onde o filho dele estava.
O dia no trabalho foi estranho. Ele olhava o celular a cada cinco minutos.
— Nasceu? — o colega perguntou.
— Nasceu.
— E como é?
— É... — Beto sorriu. — É tudo.
No almoço, ele mandou uma mensagem.
*Como tá?*
A resposta veio na hora.
*Tudo bem. Ele dormiu a manhã inteira. Saudade.*
Ele respondeu:
*Também. Vou chegar cedo.*
Encostou o celular. Faltavam quatro horas pra ver o filho de novo. Ia ser o dia mais longo.
*Continua em: livreto-220.md — Clarinha se sentindo sozinha em casa*