O bebê estava no peito dela, coberto por uma manta. O cordão umbilical ainda ligado, pulsando. Minutos de vida.
Clarinha olhava pra ele. Os olhos abertos, tentando focar. A boca pequena, os dedos minúsculos.
— Ele é perfeito — ela disse, a voz rouca de tanto gritar.
— Perfeito.
Ela passou o dedo na bochecha dele. A pele mais macia que ela já tinha tocado.
— Beto, olha a mão dele.
Ela abriu os dedinhos dele. Cinco. Cada um com uma unha minúscula.
— Tão pequeno.
— Tão.
Ela riu, mas o riso virou choro.
— O que foi? — ele perguntou.
— Não sei. — Ela enxugou os olhos. — É tanta coisa ao mesmo tempo. Amor, medo, alívio.
— Alívio?
— Dele estar bem. De ter saído. — Ela olhou pro bebê. — De ser saudável.
Beto sentou na borda da cama.
— Tô com você.
— Eu sei.
Ela olhou pro bebê.
— A gente nunca mais vai ser só a gente.
— Nunca.
— Vai ser a gente e ele.
— A gente e ele.
Ela sorriu, cansada.
— Tudo bem.
— Tudo bem.
O bebê bocejou. Um bocejo minúsculo, a boca abrindo e fechando.
Clarinha olhou pra Beto.
— Tá vendo? Já tá entediado com a gente.
Ele riu.
— Puxou o pai.
*Continua em: livreto-210.md — Primeira noite no hospital*