Clarinha empurrava. Beto segurava a perna dela, a mão dela, o olhar dela.
— Vai, amor. Mais um.
Ela empurrou. A cara vermelha, as veias do pescoço saltando.
— Tá coroando! — a médica disse. — Mais uma contração e ele sai.
Clarinha gritou. Empurrou com tudo que tinha.
E então o choro veio. Um choro fino, agudo, forte.
Beto viu o bebê. Pequeno. Roxo. Escorregadio. A médica colocou no peito de Clarinha.
Ela caiu na cama, ofegante, mas com os braços em volta do bebê.
— É menino — a médica anunciou. — Saudável. Chorando bem.
Beto não conseguia respirar. O choro enchia o quarto. O bebê se mexia, os bracinhos abertos.
— Beto — Clarinha chamou, a voz exausta. — Vem ver.
Ele se aproximou. Olhou pro rostinho. Vermelho. Inchado. Perfeito.
— Oi, pequeno. — A voz dele falhou. — Eu sou seu pai.
O bebê abriu os olhos. Escuros. Como os de Clarinha.
Ele chorou. Não teve jeito. As lágrimas escorreram.
— A gente tem um filho — Clarinha sussurrou.
— A gente tem um filho.
Ele beijou a testa dela. Beijou a cabeça do bebê. A vida tinha mudado pra sempre.
— Bem-vindo, filho.
*Continua em: livreto-209.md — Primeiro olhar - os dois viram pais*