Clarinha não conseguia dormir. A data estava chegando. Faltavam três semanas.
Ela ficava acordada imaginando o momento. A dor. A pressão. O imprevisível.
Beto sentiu ela remexendo na cama.
— Não consegue dormir?
— Não.
Ele virou pra ela.
— O que foi?
— Tô com medo.
— Do parto?
— Do parto. De não dar conta. De morrer. De alguma coisa dar errado.
Ele não disse "não vai dar nada errado". Ele sabia que não era o que ela precisava ouvir.
Ele segurou a mão dela.
— Me conta.
Ela falou. Todos os medos. Um por um. O medo da dor. O medo de não ser forte o suficiente. O medo de perder o bebê. O medo de não ser mãe do jeito que esperava.
Ele ouviu. Sem cortar, sem consertar.
Quando ela terminou, ela estava chorando.
— Clarinha.
— Fala.
— O que você sente é real. Não vou dizer que é besteira. — Ele apertou a mão dela. — Mas vou te dizer uma coisa: você é a pessoa mais forte que eu conheço.
— Não sou.
— É. Você enfrentou tanta coisa. A morte da sua avó, a distância do seu pai, a incerteza do começo da nossa relação.
Ela fungou.
— Mas isso é diferente.
— É. Mas é você. E você não desiste.
Ela respirou fundo.
— E se eu não conseguir?
— Aí a gente faz junto. Passo a passo.
— Passo a passo.
— Segundo a segundo.
Ela apertou a mão dele.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer. — Ele beijou a testa dela. — A gente divide os medos também.
*Continua em: livreto-203.md — Beto aprender a fazer massagem de alívio*