Depois que sentiu o bebê mexer, Beto não parou mais. Falava com a barriga todos os dias.
De manhã, antes de sair pro trabalho, ele chegava perto.
— Bom dia, pequeno. Hoje vai ser um dia tranquilo. Papai vai trabalhar, mas volta logo.
Clarinha observava da cama, ainda sonolenta.
— Você fala com ele como se ele entendesse.
— Ele entende. O livro diz que reconhece a voz do pai.
— O livro diz.
— O livro diz.
À noite, ele colocava a mão na barriga e contava sobre o dia.
— Hoje o trânsito estava horrível. Mas papai ouviu uma música que lembrou sua mãe. Acho que você vai gostar dela.
Clarinha riu.
— Você vai criar um bebê que nasce sabendo sua rotina.
— Esse é o plano.
Uma noite, Beto deitou com o ouvido colado na barriga.
— O que você tá fazendo?
— Escutando.
— Escutando o quê?
— O bebê.
— Ele não fala, Beto.
— Não fala. Mas eu tô tentando ouvir o coração.
Ela passou a mão na cabeça dele.
— Você é bobo.
— Sou. Bobo e apaixonado.
Ele beijou a barriga.
— Papai te ama, pequeno.
Clarinha sentiu o bebê chutar.
— Ele respondeu — ela disse.
— Respondeu mesmo?
— Respondeu.
— Tá vendo? — Ele sorriu. — Ele já sabe que eu sou o pai.
Ela puxou ele pra perto. O bebê chutou de novo. E os três ficaram ali, conectados por aquele diálogo silencioso.
*Continua em: livreto-199.md — Curso de preparação para o parto*