Clarinha estava no sofá, lendo um livro, quando sentiu. Uma borboleta. Um peixinho. Uma bolha estourando dentro da barriga.
Ela congelou. Esperou.
De novo. Dessa vez mais forte. Algo roçou a parede do útero.
— Beto.
Ele estava na cozinha. Não ouviu.
— Beto!
Ele apareceu na porta, a faca na mão.
— Que foi? Passou mal? Tá sangrando?
— Não. — Ela colocou a mão na barriga. — O bebê mexeu.
O rosto dele se iluminou.
— Mexeu?
— Mexeu.
Ele largou a faca na pia, sentou no chão na frente dela, os olhos brilhando.
— Como foi?
— Leve. Assim. — Ela pegou a mão dele e colocou na barriga. — Espera.
Ficaram os dois quietos, ele de joelhos, a mão estendida sobre a barriga.
Nada.
— Tá quieto agora — ela disse.
— Tá tímido.
Ela riu.
De repente, Beto sentiu. Um toque minúsculo. Como se alguém tivesse batido na palma da mão dele por dentro.
Ele arregalou os olhos.
— Senti.
— Senti mesmo?
— Senti. — A voz dele sumiu. — Meu Deus, Clarinha, eu senti.
Ele apoiou a testa na barriga dela.
— Oi, pequeno. — A voz dele saiu abafada. — Aqui é o pai.
Clarinha passou a mão no cabelo dele. Os dois ficaram ali, no silêncio da sala, sentindo o bebê se anunciar.
*Continua em: livreto-198.md — Beto conversar com a barriga*