Clarinha acordou às três da manhã com uma vontade incontrolável de comer sorvete de flocos com picles.
Ela cutucou Beto.
— Beto.
— Hmm?
— Beto, acorda.
Ele virou na cama, os olhos ainda fechados.
— Que foi? Passou mal?
— Não. — Ela hesitou. — Eu quero sorvete de flocos com picles.
Ele abriu um olho.
— Que horas são?
— Três e meia.
— Sorvete de flocos com picles?
— É.
Ele sentou na cama. Esfregou o rosto.
— Tá brincando?
— Tô não. É sério. Se eu não comer isso, vou morrer.
Ele riu.
— Morrer?
— Vou.
Ele levantou, pegou o short no escuro.
— Onde tem sorvete de flocos às três da manhã?
— O mercado da esquina é 24 horas.
Ele calçou o chinelo.
— Picles eu tenho na geladeira.
— Então compra só o sorvete.
— Flocos?
— Flocos.
Ele beijou a testa dela e saiu.
Quinze minutos depois, voltou com o pote de sorvete. Clarinha já estava sentada na cama, de colher na mão.
Ela abriu o pote, colocou três picles por cima e comeu.
— Que delícia.
Beto sentou do lado, olhando.
— Isso é nojento.
— É maravilhoso.
—Você nunca comeu picles na vida.
— Agora como.
Ele balançou a cabeça, rindo.
— Gravidez é isso?
— Gravidez é isso.
Ela comeu mais uma colherada.
— Quer experimentar?
— Não.
— Vai. Um pedacinho.
Ele hesitou. Mas ela colocou a colher na boca dele.
O sorvete doce com o picles azedo explodiu no paladar. Ele fez uma careta.
— Horrível.
— Perfeito. — Ela deu outra colherada. — Obrigada por ir comprar.
— Por você e pelo bebê, eu vou até na lua.
— Nem precisa. Só no mercado 24 horas.
Ele deitou do lado dela, vendo ela terminar o pote. Amor é isso. É ir buscar sorvete de flocos com picles às três da manhã.
*Continua em: livreto-194.md — Beto ler livros de gravidez (sem ela pedir)*