Clarinha estava nervosa. Mais nervosa do que tinha contado pro Beto. A primeira consulta do pré-natal era o marco oficial.
A médica, Dra. Renata, era uma mulher de uns cinquenta anos, cabelo preso, jeito direto.
— Então, primeira gravidez, vinte e poucos anos, sem comorbidades. Vamos começar.
Ela fez as perguntas de rotina. Quando foi a última menstruação, histórico familiar, alergias. Clarinha respondia, Beto anotava.
— Já fez exames?
— Só o de farmácia.
— Então vamos pedir uma bateria. Sangue, urina, ultrassom morfológico. E vamos começar com ácido fólico.
— Ácido fólico? — Beto perguntou.
— Previne má-formação do tubo neural do bebê. Essencial no primeiro trimestre.
Ele anotou. Clarinha olhou pra ele e sorriu.
Depois do exame clínico, Dra. Renata sentou pra conversar.
— Alguma dúvida?
Clarinha hesitou.
— Eu tô com medo de fazer alguma coisa errada.
— Errada tipo?
— Tipo comer algo que não pode. Dormir de barriga pra cima. Fazer esforço.
A médica inclinou a cabeça.
— Gravidez não é doença, Clarinha. Você vive normalmente. Só evita álcool, cigarro, carne crua e peixe com mercúrio. De resto, vida normal.
— Vida normal?
— Normal. Com acompanhamento. É isso que o pré-natal faz. Te acompanha, não te prende.
Clarinha respirou aliviada.
— Pode continuar trabalhando?
— Pode. Pode fazer exercício leve. Pode ter relação. Pode tudo.
Beto tossiu.
— Tudo?
A médica riu.
— Tudo, dentro do bom senso.
Na saída, Clarinha apertou a mão de Beto.
— Tô mais tranquila.
— Eu também.
— A médica é boa.
— É. Passa confiança.
— E o ácido fólico?
— Já comprei. Pesquisei na hora.
Ela riu.
— Você é rápido.
— Você é minha prioridade.
*Continua em: livreto-193.md — Clarinha com desejo estranho de comida*