Beto chegou em casa mais cedo do trabalho só pra acompanhar Clarinha na consulta. Ele tinha tirado a tarde inteira. Não ia perder aquele momento por nada.
No consultório, a médica pediu que Clarinha deitasse na maca. Beto ficou ao lado, segurando a mão dela.
— Vai gelar um pouco — avisou a médica, passando o gel na barriga.
Clarinha apertou a mão dele.
A médica posicionou o aparelho. A imagem apareceu na tela.
— Tá vendo? Aqui é o saco gestacional.
Beto se inclinou pra ver melhor. A tela era meio embaçada, mas ele enxergou uma bolinha escura com um pontinho dentro.
— E aquele pontinho? — ele perguntou.
— É o embrião.
Ele sentiu a garganta fechar.
— E o coração? — Clarinha perguntou, a voz ansiosa.
A médica ajustou o aparelho. De repente, um som encheu a sala.
Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.
Rápido. Forte.
— É o coração do bebê — a médica disse, sorrindo.
Clarinha levou a mão livre à boca. Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Beto ficou olhando pra tela, ouvindo aquele som. Um coraçãozinho batendo dentro da mulher que ele amava.
— Ele é tão pequeno — ele sussurrou.
— Cento e vinte batimentos por minuto. Tá perfeito — a médica confirmou.
Na saída, no carro, Beto ficou um tempão sentado sem ligar o motor.
— Tá bem? — Clarinha perguntou.
— Tô. — Ele passou a mão no rosto. — Só processando. A gente viu o coração dele.
— Dela.
— Dela. Dele. Tanto faz. — Ele riu. — A gente viu o coração.
Clarinha colocou a mão na barriga.
— A gente tem um bebê de verdade.
— A gente tem.
Ele ligou o carro. O som do coração ainda ecoava dentro dele.
*Continua em: livreto-189.md — Enjôos matinais - Clarinha passando mal*