Carlos estava de pé no meio do salão alugado, um rolo de fita adesiva numa mão e um balão murcho na outra. A mesa de madeira ocupava o centro. As cadeiras de plástico branco estavam empilhadas num canto. O relógio na parede marcava 10h da manhã. O encontro era ao meio-dia.
Ele não organizava nada desde o churrasco do aniversário do Pedro. E isso tinha sido no ano passado, com churrasqueira, refrigerante e cinco adultos.
Agora eram trinta primos. Trinta. Gente que ele não via há dez, quinze, vinte anos.
— Relaxa — Luísa disse, entrando no salão com uma sacola de compras. — Você parece que vai tomar uma prova oral.
— Pareço?
— Parece.
Ela colocou a sacola na mesa. Tirou um pacote de copos descartáveis, dois litros de refrigerante, um saco de carvão.
— O primo Fábio confirmou? — ela perguntou.
— Confirmou.
— A Paula?
— Também.
— O Renan?
— Não respondeu ainda.
— Quantos confirmaram no total?
Carlos parou. Olhou para a lista no celular.
— Dezenove.
— Dezenove é um número bom.
— E os outros onze?
— Os outros onze vão aparecer sem confirmar, e aí vão reclamar que não tinha comida suficiente. É a lei dos encontros de família.
Carlos riu. Estava tenso demais para rir de verdade, mas o ar saiu.
— O que mais falta? — Luísa perguntou.
— Arrumar as mesas. Colocar a música. Esperar.
— Então arruma as mesas.
Ele arrumou.
Meio-dia e quinze. O primeiro primo chegou. Foi o Juninho, o mais novo, que morava a duas ruas dali. Entrou de bermuda e chinelo, um enroladinho de queijo na mão.
— Fala, primo! Quanto tempo!
— Tudo bem, Juninho?
Eles se abraçaram. O abraço foi estranho, como todo abraço de quem não se via há anos. Mas foi abraço.
Depois veio a Paula, com o marido e dois filhos. Depois o Renan, que afinal apareceu sem confirmar. Depois a Fabiana, o Gustavo, a tia Margarida que veio representar os mais velhos.
O salão foi enchendo. As vozes foram subindo. As cadeiras rangeram. As crianças corriam entre as mesas.
Carlos ficou na churrasqueira, o avental preto amarrado na cintura, o fumo subindo no ar. Ele virava os espetos, suava, e olhava para a cena.
O primo Fábio chegou com a esposa. Estava diferente. Barba feita, cabelo mais curto, um quilo a mais. Mas a voz era a mesma.
— Primo! — Fábio gritou do outro lado do salão.
Carlos largou a espátula. Foi até ele. Se abraçaram. O abraço durou dois segundos a mais que um abraço normal.
— Você veio — Carlos disse.
— Falei que vinha.
— Falei, mas achei que era da boca pra fora.
— Não. Era de verdade.
Sentaram na mesa do fundo. Os dois. Copo de cerveja na mão. A carne assando atrás, o salão cheio de primos na frente.
— Lembra quando a gente apostou quem conseguia pular o muro da vó? — Fábio perguntou.
— Lembro. Você caiu no canteiro de begônias.
— E você ficou com medo e não pulou.
— Porque era mais alto que eu.
— Não era. Você que era medroso.
— Era.
Os dois riram. Um riso que veio do fundo, sem controle, que fez a mesa tremer.
No fim da tarde, todo mundo foi embora. Os primos se despediram com promessas de repetir. "Ano que vem de novo." "Vou trazer o vinho." "Vou trazer a sobremesa."
Carlos ficou no salão vazio. As cadeiras desarrumadas. Os copos pela mesa. O cheiro de carvão e cerveja no ar.
Luísa apareceu ao lado dele.
— Cansado?
— Muito.
— Valeu a pena?
Ele olhou para o salão bagunçado. Para os balões murchos. Para a fita crepe que ele colou na parede e que já estava soltando.
— Cada centavo.
Nem todo encontro precisa ser perfeito. Só precisa acontecer.
*Continua em: livreto-186.md — Conselho de tio confiança*