O almoço de domingo na casa da tita Alzira era um evento anual que Luísa aprendera a suportar. Não por maldade. Mas porque a sala de estar virava um palco e cada um dos primos ocupava um lugar na disputa invisível.
Ela chegou com Carlos. Travessa de salada de maionese na mão. Vestido azul marinho. Cabelo preso. Saudou todo mundo com um beijo no rosto e foi direto para a cozinha ajudar.
A tia Alzira estava no fogão, a panela de pressão chiando.
— Luísa, minha linda! Senta, senta, deixa que eu termino.
— Deixa eu ajudar, tia.
— Não precisa. Olha lá na sala. O primo Felipe trouxe a namorada nova.
Luísa foi para a sala. Cumprimentou o primo Felipe, a namorada nova, o primo André, a prima Renata. Sentou no sofá entre Carlos e a prima Renata.
Foi aí que começou.
— Luísa, você viu a foto do Felipe na praia? — a tia Alzira gritou da cozinha. — Ele tá bombado, hein? Malha todo dia.
Felipe sorriu, sem graça.
— Mãe, para.
— To falando a verdade. Tá lindo. Olha o shape dele.
Luísa riu com a boca fechada. Não disse nada.
— E você, Luísa, ainda tá no design? — a tia perguntou.
— Tô, tia. O estúdio tá crescendo.
— Que bom. O Felipe agora é gerente. Gerente, Luísa. Com vinte e oito anos.
Carlos olhou de lado para Luísa. Ela manteve o sorriso.
— Que legal, primo. Que orgulho.
Felipe balançou a cabeça.
— Não é nada demais, mãe.
— É demais sim. Você batalhou.
A prima Renata, sentada ao lado de Luísa, baixou a cabeça. Ela estava desempregada há três meses. Todo mundo sabia. Ninguém mencionou.
Luísa olhou para as mãos de Renata. As unhas estavam roídas até a carne. Ela colocou a mão por cima, num gesto pequeno, sem ninguém ver.
— Renata, você viu aquela vaga que eu te mandei? — Luísa perguntou, baixo.
Renata levantou os olhos.
— Vi.
— Me manda o currículo depois. A Camila conhece o pessoal da agência.
Renata abriu um sorriso pequeno. Um sorriso que não pedia nada em troca.
Na mesa do almoço, a tia Alzira continuou: — Felipe, conta da promoção. André, você passou no concurso? Renata, e o emprego novo?
Luísa serviu arroz no prato de Renata antes que ela precisasse responder. Depois virou para a tia Alzira.
— Tia, essa salada de maionese tá divina. A senhora ensina a receita para mim?
A tia Alzira parou. Sorriu. Mudou de assunto.
Nem toda comparação precisa ser enfrentada. Às vezes, ela só precisa ser desviada com duas colheres de salada de maionese.
*Continua em: livreto-185.md — Encontro de primos*