O ventilador de teto girava lento, cortando o ar quente da sala. Carlos estava com o celular na mão, o polegar parado sobre a foto de perfil do primo Fábio. A última mensagem era de janeiro. Um "Feliz Ano Novo" com fogos de artifício no fundo. Agora era julho.
Ele arrastou o dedo para cima. A conversa era curta. Antes disso, dezembro. Antes, setembro. Sempre a mesma coisa: uma saudação em data comemorativa, duas respostas secas, o silêncio que voltava.
Luísa chegou da cozinha com duas canecas de café. Colocou uma na mesa de centro na frente dele.
— Três dias que você olha pra esse celular sem mexer — ela disse, sentando no sofá.
Carlos virou a tela para ela.
— Olha isso.
Luísa inclinou a cabeça, leu a conversa.
— Seis meses sem trocar ideia de verdade.
— Pois é.
— E por que você não manda alguma coisa?
Carlos encolheu os ombros. Colocou o celular virado na mesa.
— Não sei o que falar. A gente era próximo quando criança. Acampava no quintal da avó, jogava bola na rua, dividia o mesmo suco. Hoje ele mora em Brasília, eu aqui. A gente virou duas pessoas que se conheceram uma vez.
Luísa mexeu o café, a colher tilintando na caneca.
— Você sente falta?
Carlos demorou a responder. O ventilador rodava. O barulho do motor era baixo, constante.
— Sinto — ele disse. — Mas parece que já passou tempo demais. Que tentar retomar agora vai ser forçado.
— Forçado como?
— Tipo mandar mensagem do nada. "E aí, primo, como é que cê tá?" Parece que eu quero alguma coisa.
— Você quer.
— Quero o quê?
— Querer saber como ele está. Isso não é querer nada. É o contrário.
Carlos pegou a caneca. O café estava quente, o vapor subindo no ar. Ele olhou para a tela do celular apagada.
No dia seguinte, ele mandou uma mensagem. Não foi grande. Não teve planejamento. Ele só escreveu: "Primo, tava lembrando da vez que a gente construiu a cabana no quintal da vó. Saudade. Como é que cê tá?"
O primo respondeu três horas depois. Um áudio de quarenta segundos.
Carlos apertou play. A voz do Fábio saiu, um pouco mais grave do que ele lembrava, mas com o mesmo ritmo de sempre.
— Cara, que doido você falar isso. Eu tava ontem vendo umas fotos velhas, achei uma da gente naquela cabana. A madeira toda torta, caindo aos pedaços, mas a gente achava que era o castelo mais foda do mundo. To bem, primo. To bem. Tô devendo uma visita. Vou ver se consigo ir aí no fim do ano.
Carlos ouviu o áudio duas vezes. Depois guardou o celular no bolso e foi terminar o jantar.
Não era a cabana que importava. Era saber que o outro também lembrava.
*Continua em: livreto-184.md — Comparação entre primos*