O grupo do WhatsApp dos primos tinha doze participantes e zero mensagens nos últimos três meses. A última conversa era um convite pro aniversário de alguém, seguido de cinco "não vou poder" e um "vou ver".
Luísa rolou o histórico e sentiu uma pontada de nostalgia.
— A gente era tão próximo — ela disse, virando o celular pro Carlos.
— Quem?
— Os primos. A gente passava férias juntos, dormia na casa um do outro. Hoje a gente mal se fala.
— Isso é normal.
— É triste.
Carlos apoiou o queixo no ombro dela.
— Marca alguma coisa.
— Tipo o quê?
— Um encontro. Não precisa ser grande. Só um motivo pra vocês se verem.
Luísa mordeu o lábio e abriu o grupo. Digitou, apagou. Digitou de novo.
*"Gente, e se a gente marcar um encontro dos primos mês que vem? Tipo um jantar ou um piquenique."*
As respostas começaram a chegar em minutos.
*Prima Jéssica: "SIM! Saudades."*
*Primo Lucas: "Pode ser no sábado?"*
*Prima Amanda: "Finalmente alguém tomou a frente."*
*Primo Rafael: "Vou levar a namorada."*
No sábado marcado, seis primos apareceram. O encontro foi num boteco simples, com mesas de madeira e chopp gelado. No começo, a conversa foi estranha — as perguntas padrão de quem não se via há tempo. "Como tão as coisas?", "Ainda trabalha no mesmo lugar?", "Casou?"
Mas depois da segunda rodada de chopp, a barreira caiu.
— Lembra quando a gente construiu a cabana no quintal da vó? — a prima Jéssica disse.
— A cabana que desabou? — o primo Lucas completou.
— Desabou porque você chutou a parede!
— Chutei porque tinha uma aranha!
A mesa inteira riu. As histórias começaram a sair. As férias na praia. A briga no Natal de 2009. O primo que caiu da bicicleta e ralou o joelho inteiro.
Luísa sentou e ouviu, um sorriso no rosto. A conexão não tinha sumido. Só estava adormecida.
No fim da noite, a prima Jéssica segurou o braço dela.
— A gente precisa fazer isso mais vezes.
— Vamos marcar todo mês.
— Jura?
— Juro.
— Porque você falou isso no Natal passado e não rolou.
— Dessa vez vai.
A prima Jéssica sorriu, os olhos apertados.
— Tá bom. Confio em você.
Luísa chegou em casa com o rosto dolorido de tanto rir. Carlos já estava deitado, o livro no peito.
— Foi bom?
— Foi tão bom que eu vou marcar o próximo amanhã.
— Sério?
— Sério. Não quero esperar mais três meses.
Ela deitou ao lado dele e ficou olhando pro teto. Primo não é amigo que a gente escolhe. Mas é amigo que a gente pode manter. Se fizer esforço.
*Fim da sequência Eventos + Família ampliada (163–182)*