O fim de tarde estava dourado. Carlos e Pedro estavam sentados no banco da praça, observando as pessoas passarem. Toby estava no chão, farejando o gramado, o rabo abanando sem parar.
Pedro estava quieto. O celular estava no bolso — coisa rara.
— Pai — ele disse. — O bebê vai nascer e eu vou ter que dividir tudo, né?
— Dividir o quê?
— O quarto. A atenção. O espaço.
Carlos olhou para o filho. Pedro estava com o olhar perdido, acompanhando um casal que passava empurrando um carrinho de bebê.
— Vai dividir algumas coisas — Carlos respondeu. — Mas não do jeito que você pensa.
— Como então?
— O melhor de ter um irmão é que você ganha alguém que vai estar do seu lado quando eu não estiver mais.
Pedro virou o rosto.
— Isso é meio mórbido, pai.
— É verdade. Um dia eu não vou estar aqui. Sua mãe também não. E a única pessoa que vai ter a mesma história que você, a mesma infância, as mesmas lembranças, é seu irmão.
Pedro ficou em silêncio. Uma folha seca caiu de uma árvore, rodopiou no ar, foi parar perto do banco.
— Como é que eu aprendo a ser um irmão bom? — ele perguntou. A voz estava mais baixa.
Carlos pensou. O sol tocava o topo das árvores, o céu estava mudando de azul para laranja.
— Uma coisa que seu avô me ensinou — ele disse. — Ele falou que a gente aprende a cuidar dos outros cuidando. Não tem teoria. É prática.
— Prática como?
— Você vai ver o bebê chorar e não vai saber o que fazer. Mas você vai tentar. Vai pegar no colo, vai fazer careta, vai tentar distrair. Pode não funcionar. Mas você tentou. Isso é empatia.
— Tentar?
— Tentar se colocar no lugar do outro. Imaginar o que ele tá sentindo. Mesmo que você não saiba exatamente.
Pedro olhou para o carrinho de bebê que passava. A mãe empurrava devagar, o bebê dormia.
— E se eu não conseguir?
— Você vai tentar de novo. — Carlos colocou a mão no ombro do filho. — A empatia é como um músculo. Você exercita, ela cresce.
Pedro ficou olhando para o carrinho sumir na esquina.
— Eu posso ajudar a cuidar dele?
— Pode. Mas com uma condição.
— Qual?
— Você não pode tratar ele como um boneco. Ele é uma pessoa. Pequena, dependente, mas pessoa. Você vai precisar respeitar ele como respeita qualquer pessoa.
— Respeitar um bebê?
— Respeitar uma pessoa que não sabe falar ainda. Que depende dos outros pra tudo. — Carlos virou o corpo para encarar o filho. — Você já foi assim. Eu cuidei de você. Agora a gente vai cuidar de outro. E você vai me ajudar.
Pedro ficou em silêncio. Depois assentiu.
— Tá bom.
— E tem mais uma coisa.
— O quê?
— A maior lição de empatia que você pode ensinar pro seu irmão é ser gentil com ele. Mesmo quando ele for chato. Mesmo quando ele pegar suas coisas. Mesmo quando ele for adolescente e você achar que ele é insuportável.
— Igual você com o tio Beto?
Carlos riu.
— Igual eu com o tio Beto.
O sol estava quase se pondo. O céu tinha listras laranjas e rosas. Toby veio deitar aos pés dos dois, a língua para fora.
Carlos olhou para o filho. Daqui a alguns meses, ele ia estar segurando um bebê no colo. Daqui a alguns anos, os dois iam estar correndo juntos na praça.
— Vamos pra casa? — ele perguntou.
— Vamos.
Os dois se levantaram. Toby pulou na frente, latindo. O caminho de volta tinha o cheiro de jantar vindo das casas da rua.
Carlos colocou o braço no ombro do filho. O gesto era simples, mas dizia tudo o que precisava ser dito.
*Fim*