O barulho do liquidificador vinha da cozinha. Luísa estava no sofá, o celular na mão, rolando as fotos do Instagram. Uma amiga do trabalho tinha postado o chá de bebê — bolo de fraldas, balões azuis, o sorriso largo do marido ao lado dela.
Luísa colocou o celular de lado. Olhou para a própria barriga, já aparecendo debaixo da camiseta.
— Tá pensando no quê? — Camila estava na porta da cozinha, secando as mãos num pano de prato. A sócia tinha vindo passar a tarde, e o apartamento cheirava a bolo de cenoura.
— Na Jéssica. Minha amiga do estúdio. Ela postou o chá de bebê hoje.
— E?
— E a gente não se fala faz uns dois meses. Desde que ela entrou de licença.
Camila sentou na poltrona em frente, o pano de prato no ombro.
— E você acha que ela sumiu por causa do bebê?
— Acho. Ela convidou a gente pro chá, mas eu não fui. Tava passando mal com enjoo.
— E você mandou mensagem?
Luísa hesitou.
— Mandei. Parabéns, felicidades, esse tipo de coisa.
— E ela?
— Respondeu com um obrigada seco.
Camila apoiou o queixo na mão.
— Talvez ela esteja se sentindo sozinha. Amiga que vira mãe às vezes acha que perdeu o contato com o mundo.
— Mas eu também tô grávida. A gente tinha tanta coisa pra compartilhar.
— E você compartilhou?
Luísa ficou em silêncio. A pergunta de Camila cutucou alguma coisa.
— Não muito — ela admitiu.
— Então liga pra ela. Manda uma mensagem de verdade. Não de parabéns. De "como você está?"
Luísa pegou o celular. Abriu a conversa com Jéssica. A última mensagem era dela mesma, de três semanas atrás: *"Tudo bem com você?"* Sem resposta.
Ela digitou: *"Jé, desculpa pelo sumiço. Os enjoo me derrubaram e eu fui me isolando. Queria saber como você tá. De verdade. Se quiser visitar a gente ou só conversar, tô aqui."*
Ela mostrou pra Camila.
— Boa — Camila disse. — Manda.
Luísa apertou enviar. Colocou o celular no sofá, virado para baixo.
— E se ela não responder?
— Aí você tentou. Isso é o que importa.
O celular vibrou. Luísa virou. A resposta de Jéssica: *"Tava com saudade. Tô exausta, o bebê acorda de três em três horas, mas tô bem. Vem me visitar quando puder. Sinto falta de você."*
Luísa sorriu. Mostrou a mensagem para Camila.
— Viu? — Camila disse. — Amizade não acaba quando nasce filho. Só muda de forma.
Luísa respondeu: *"Vou essa semana. Levo bolo de cenoura."*
O celular vibrou de novo: *"Amoooo. Com cobertura?"*
Luísa riu. Olhou para a cozinha, onde o bolo de cenoura de Camila esfriava na mesa.
— A gente vai ter que fazer outro bolo — ela disse.
— Esse é seu. O da Jéssica a gente faz amanhã.
Luísa apoiou a cabeça no sofá. O celular na mão, a conversa reaberta, o bolo esfriando na cozinha. Amiga que vira mãe não perde a amiga — só ganha uma história nova para compartilhar.
*Continua em: livreto-180.md — Ensinar empatia para crianças*