O carro estava estacionado em frente à casa de Dona Lúcia. O sol da manhã batia no para-brisa, aquecendo o interior. Carlos estava ao volante, as mãos no volante, o motor desligado.
— Você vai ficar aí ou vai descer? — Luísa perguntou. Ela estava no banco do passageiro, a bolsa no colo.
— Vou descer. Só tô pensando.
— No quê?
— No que vou falar.
— A mesma coisa que você falou pra sua irmã. E pro Beto. E pra sua mãe no telefone.
— É diferente. — Carlos passou a mão na nuca. — Com minha mãe foi por telefone. Agora vou ter que falar com meu pai, olho no olho.
Luísa inclinou a cabeça.
— Seu Antônio está em casa?
— Tá. Minha mãe disse que ele tá na varanda, lendo o jornal.
— Então vamos.
Ela abriu a porta. Carlos respirou fundo e desceu também.
A casa de Dona Lúcia tinha aquele cheiro de sempre — bolo, café, guardado. A varanda estava com a porta de vidro aberta, deixando o ar da manhã entrar. Seu Antônio estava sentado na cadeira de balanço, os óculos de leitura na ponta do nariz, o jornal aberto nas mãos.
— Ô, pai.
Seu Antônio baixou o jornal. Olhou para o filho, depois para Luísa.
— Cedo hoje.
— É que a gente tem uma notícia.
O velho fechou o jornal. Dobrou. Colocou no colo. O gesto era lento, deliberado.
— Senta.
Carlos sentou na cadeira ao lado. Luísa ficou em pé, a mão apoiada no ombro dele.
— A Luísa tá grávida.
O silêncio durou o tempo de um passarinho cantar no quintal. Seu Antônio tirou os óculos. Olhou para o jardim. Depois para o filho.
— Quantos meses?
— Quinze semanas.
— Já passou do risco.
— Já.
O velho assentiu. Olhou para as mãos dele, apoiadas nos joelhos. As mãos calejadas de uma vida de trabalho.
— Eu vou ser avô de novo — ele disse. Não era pergunta.
— Vai.
Seu Antônio ficou em silêncio. O sol da manhã passava pelas folhas das plantas na varanda, desenhando sombras no chão de cimento. Ele respirou fundo.
— Quando o Pedro nasceu, eu tava no hospital — ele disse. — Lembro de você segurando ele, com aquela cara de quem não sabia o que fazer.
— É porque eu não sabia.
— Ninguém sabe. — Seu Antônio olhou para ele. — Mas você aprendeu. Vai aprender de novo.
Carlos sentiu um aperto na garganta.
— Cuidado com ela — o pai disse, apontando para Luísa. — Grávida precisa de sossego, de boa comida, de carinho. Se ela quiser manga com leite condensado às três da manhã, você levanta e vai buscar.
— Vou, pai.
— E o bebê vai ser bem-vindo. — Seu Antônio colocou os óculos de volta. Pegou o jornal. — Pode falar pra sua mãe fazer um bolo.
Carlos riu. Olhou para Luísa. Ela estava sorrindo, os olhos brilhando.
— Vou falar.
Ele levantou. Antes de entrar, virou.
— Valeu, pai.
O velho não respondeu. Só balançou a cabeça, o olho no jornal. Mas na borda do jornal, Carlos viu o começo de um sorriso.
*Continua em: livreto-179.md — Amigos que viram pais*