O grupo da família no WhatsApp estava silencioso. A última mensagem era de três dias atrás — uma corrente de bom dia que ninguém tinha respondido. Carlos olhava para a tela, o polegar pairando sobre o teclado.
— Vai mandar? — Luísa perguntou. Estava deitada no sofá, a cabeça apoiada numa almofada, os pés no colo dele.
— Tô pensando como fazer.
— Manda logo. Se demorar, minha mãe vai ligar.
Carlos riu. Luísa estava certa. Dona Margô ligava toda semana. E toda semana perguntava se tinha novidade.
— E se a gente fizer um jantar? — ele sugeriu. — Chama geral. Conta junto.
— Geral quem?
— Minha mãe, minha irmã, o Beto. Sua mãe.
Luísa pensou. Os olhos dela vagaram pelo teto.
— Se chamar todo mundo, vira evento. Aí todo mundo vai querer palpite.
— E a gente não deixa.
— Você consegue controlar sua mãe?
— Você controla a sua.
— Minha mãe não precisa ser controlada. Ela já sabe o lugar dela.
Carlos riu de novo. Luísa tinha um talento para falar verdades que doíam de tão certeiras.
— Tá bom. Jantar. Sábado que vem. Só a família mais próxima.
— E o Pedro? — Luísa perguntou.
— Ele já sabe. A gente conta pra ele primeiro. Separado.
— Boa ideia.
O sábado chegou. A mesa da sala estava posta com toalha limpa, pratos brancos, talheres arrumados. Luísa tinha feito uma lasanha — a receita da mãe dela, que sempre funcionava. O cheiro de queijo gratinado tomava conta do apartamento.
Dona Lúcia chegou primeiro. Depois Beto e a cunhada. Clarinha veio depois. Dona Margô foi a última, com uma torta de limão na mão.
— Sentei todo mundo? — Carlos perguntou, em pé perto da mesa.
— Falta o quê? — Beto perguntou, já com o garfo na mão.
Carlos olhou para Luísa. Ela deu um sorriso pequeno. Um sinal.
— A gente tem uma notícia — Carlos disse.
Todo mundo parou.
— A Luísa tá grávida.
O silêncio durou um segundo. Depois veio tudo de uma vez — Dona Lúcia levou as mãos ao rosto, Clarinha gritou, Beto bateu na mesa, Dona Margô abriu um sorriso calmo, como quem já sabia.
— Meu Deus! — Dona Lúcia levantou. — Meu Deus! Eu vou ser avó de novo! — Ela abraçou Carlos, depois Luísa. — Que notícia, que notícia!
— Quantos meses? — Beto perguntou.
— Quinze semanas — Luísa respondeu.
— Já sabe o sexo?
— Ainda não. Vamos descobrir no parto.
— Que romântico — Clarinha disse, os olhos marejados.
A mesa virou uma festa. Dona Lúcia já estava planejando o enxoval. Beto perguntou se ia ser menino ou menina. Clarinha queria saber se podia ser madrinha. Dona Margô comeu lasanha em silêncio, o sorriso no rosto.
Carlos sentou, olhou para a mesa cheia. A família dele — bagunçada, barulhenta, cheia de opiniões. Mas dele.
Luísa segurou a mão dele por baixo da mesa.
— Deu certo — ela sussurrou.
Ele apertou a mão dela. A lasanha estava fumegando. O copo de suco estava gelado. A casa estava cheia.
*Continua em: livreto-177.md — Apoiar parente tentando engravidar*