O apartamento estava silencioso. O bebê tinha acabado de dormir — finalmente — depois de quarenta minutos de choro, colo, chuca e mais choro. Luísa estava deitada no sofá, os olhos fechados, a cabeça latejando.
A campainha tocou.
Ela abriu os olhos. Olhou para o teto. Obrigou o corpo a levantar.
Era Clarinha, a irmã de Carlos. Sorrindo. Com um bolo de fraldas no colo e um buquê de flores.
— Oi! Vim conhecer o sobrinho!
Luísa piscou. Os olhos estavam ardendo de cansaço. Ela tentou sorrir.
— Oi, Clarinha. Entra.
Clarinha entrou. Olhou em volta. A sala estava uma bagunça — manta no chão, uma mamadeira na mesa de centro, um pacote de fraldas aberto no canto.
— Que fofo! Tá uma graça essa bagunça de recém-nascido. — Ela colocou o bolo de fraldas na mesa. — E o bebê? Tá acordado?
— Dormiu agora — Luísa disse.
— Ah, que pena! Mas eu espero ele acordar.
Luísa sentiu o estômago apertar. Ela queria dormir. Queria um banho. Queria cinco minutos de silêncio. Mas Clarinha estava ali, com flores e sorriso, e não tinha como mandar embora.
— Senta — Luísa disse, apontando para o sofá. — Quer água?
— Pode ser suco?
— Vou ver.
Na cozinha, Luísa apoiou as mãos na pia. Olhou pela janela. Do lado de fora, o dia estava claro. Pessoas andando na rua. Vida normal.
Ela respirou fundo. Pegou o suco.
Quando voltou, Clarinha estava em pé, olhando pela porta do quarto.
— Ele dorme assim, com a boca aberta? — ela perguntou, rindo.
— Dorme. — Luísa entregou o copo. Escutou. O bebê estava respirando fundo. Cada minuto de silêncio era um minuto precioso.
Clarinha sentou. Falou sobre o trabalho, sobre um filme que tinha visto, sobre a prima que estava grávida também. Luísa acenava com a cabeça. As palavras entravam e saíam sem fazer morada.
Depois de quarenta minutos, o bebê acordou. Chorou. Luísa levantou como um reflexo.
— Deixa que eu pego — Clarinha disse, animada.
— Não. — A palavra saiu mais rápida do que Luísa gostaria. — Ele tá com fome e fica agitado com estranho. Melhor eu pegar.
Clarinha piscou. Depois assentiu.
— Claro. Eu vou indo.
Na porta, Clarinha virou.
— Foi mal se atrapalhei. É que eu tava tão ansiosa pra conhecer ele.
Luísa segurou o bebê no colo. O corpo pequeno e quente contra o peito dela.
— Não atrapalhou — ela disse, e era meia-verdade. — Mas da próxima vez, avisa antes. Aí a gente combina um horário bom.
— Combinado. — Clarinha sorriu. Beijou o bebê na testa com cuidado. — Tchau, pequeno.
Quando a porta fechou, Luísa sentou no sofá com o bebê nos braços. Ele já estava com fome, procurava o peito. A casa ficou em silêncio de novo.
Ela deu de mamar. O sol entrava pela cortina. Dessa vez, quando o bebê dormisse, ela ia dormir junto.
*Continua em: livreto-176.md — Anunciar gravidez para família*