Como lidar com avós que estragam os netos?

Carlos

O domingo na casa de Dona Lúcia tinha cheiro de almoço caseiro — frango assado, arroz soltinho, farofa dourada. A mesa estava posta, os pratos arrumados, os copos com água gelada.

Pedro já tinha almoçado e estava no sofá da sala, o celular na mão, os dedos deslizando pela tela. Dona Lúcia apareceu com um pote de vidro cheio de brigadeiros.

— Olha o que a avó fez.

Pedro ergueu os olhos.

— Brigadeiro?

— Caseiro. Com chocolate de verdade.

Ele pegou um. Depois outro. Dona Lúcia riu, passou a mão no cabelo dele.

— Vai, come mais um.

— Mãe — Carlos apareceu na porta da sala. — Já almoçou, vai estragar a sobremesa.

— Sobremesa é depois — Dona Lúcia disse, sem se virar. — Isso é lanche.

— Acabou de almoçar.

— Uma hora da tarde, o menino tá com fome de novo. Tá na idade.

Pedro olhou para o pai, o brigadeiro na mão, sem saber se comia ou devolvia.

Carlos respirou fundo. A cozinha ainda cheirava a almoço. Panelas na pia. O sol da tarde entrava pela janela.

— Mãe, vem cá um minuto.

Ele foi para a cozinha. Dona Lúcia seguiu, o pote de brigadeiro ainda na mão.

— O que foi?

— A gente combinou, mãe. Não estragar a alimentação.

— É um brigadeiro, Carlos. Não vai matar ele.

— Não é sobre o brigadeiro. É sobre a regra.

Dona Lúcia colocou o pote na pia. O barulho do vidro contra a louça foi seco.

— Eu sou avó. Avó pode mimar.

— Pode. Mas dentro do que a gente combinou. Depois do almoço, não é hora de doce. Se ele quiser, come depois da janta.

— Depois da janta ele vai embora.

— Então come amanhã.

O silêncio na cozinha era só o barulho da torneira pingando. Dona Lúcia olhou para o filho. Os olhos dela estavam apertados.

— Você nunca reclamou quando eu dava doce pro Pedro antes.

— Antes era diferente. Agora eu e a Luísa estamos estabelecendo uma rotina. E a senhora faz parte do que a gente combinou.

— Combinado com a Luísa, você quer dizer.

— Com a Luísa e comigo. Nós dois.

Dona Lúcia ajeitou o avental. Olhou para a janela. Depois deu um suspiro.

— Tá bom. — Ela pegou o pote, abriu a geladeira, guardou. — Depois da janta.

— Obrigado, mãe.

— Mas amanhã cedo eu faço mais e mando com ele.

Carlos riu. Abraçou a mãe. Ela era menor do que ele lembrava, ou ele era maior.

— Pode mandar.

O sol entrava pela janela da cozinha. Dona Lúcia soltou o filho e voltou para a sala. Do sofá, Pedro olhou para os dois.

— O brigadeiro? — ele perguntou.

— Depois da janta — a avó respondeu. Mas o sorriso no rosto dela dizia que ela já estava planejando a fornada do dia seguinte.

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