O telefone tocou no meio da tarde. Luísa estava no sofá, o notebook no colo, um projeto aberto na tela. Ela atendeu sem olhar o número.
— Alô?
— Minha filha, é a mãe.
A voz de Dona Margô vinha clara, com aquele tom calmo de quem liga sem pressa.
— Oi, mãe.
— Tudo bem? E o bebê?
— Tudo bem. O bebê tá chutando hoje.
— Chutando? — A voz da mãe ficou mais animada. — Já? Com quantos meses você tá?
— Vinte e duas semanas.
— Ainda é cedo pra sentir, mas algumas sentem. Você é uma delas.
Luísa desligou o notebook. Colocou de lado. A ligação da mãe era sempre um respiro no meio do dia — mas ela sabia que não era só para saber do bebê.
— Mãe, deixa eu perguntar uma coisa.
— Fala.
— Como é que a senhora quer participar da criação do bebê?
Do outro lado da linha, silêncio. Depois uma risada baixa.
— Desde quando você perdeu o jeito de falar na cara?
— Não perdi. Mas essa pergunta é importante.
— Então vou responder na cara também. — Dona Margô pigarreou. — Eu quero estar presente. Quero ver crescer, quero ajudar no que precisar, quero ser a avó que vai buscar na escola quando vocês não puderem. Mas não quero me meter.
— A senhora consegue separar as duas coisas?
— Consigo. — A voz ficou mais séria. — Eu fui professora trinta anos. Aprendi que cada criança é um mundo. Não adianta querer repetir o que funcionou com uma. E vocês são os pais. Eu sou avó. O papel é diferente.
Luísa apoiou a cabeça no encosto do sofá. Toby estava ao lado, o focinho apoiado na perna dela.
— O que a senhora acha que pode ajudar mais?
— O que você precisar. Mas acho que o mais importante é o que nenhum livro ensina.
— O quê?
— Presença. Silêncio. Saber quando ficar e quando ir embora.
Luísa fechou os olhos.
— Como a senhora aprendeu isso?
— Errando. Com você. — A voz de Dona Margô ficou mais macia. — Quando você era pequena, eu queria resolver tudo. Aí você cresceu e me ensinou que o melhor que eu podia fazer era estar disponível, não no controle.
— A senhora acha que a Dona Lúcia vai aprender isso também?
— Vai. No tempo dela. — Uma pausa. — Cada avó descobre o lugar dela. A Lúcia vai descobrir também. Você precisa dar espaço pra ela descobrir.
— É o que eu tô tentando fazer.
— E tá conseguindo. Você já chamou ela pra conversar, já pôs limite, já abriu a porta. Agora é esperar.
Luísa abriu os olhos. O teto da sala estava branco, com uma mancha pequena perto da luminária.
— Obrigada, mãe.
— De nada, minha filha. E me avisa quando o bebê chutar de novo, quero saber.
— Vou avisar.
Desligou. Toby levantou a cabeça, lambeu a mão dela. Luísa passou a mão no pelo do cachorro e sentiu o bebê mexer dentro da barriga — um movimento pequeno, como se estivesse concordando com a avó.
*Continua em: livreto-174.md — Avós que estragam os netos*