Como lidar com o ciúme do enteado?

Carlos

O sábado estava claro, o sol alto. Carlos e Pedro estavam na sala, cada um numa ponta do sofá. A TV estava ligada num canal de esportes, mas nenhum dos dois prestava atenção.

— Pai — Pedro disse. A voz dele estava diferente. Mais grave do que na última visita.

— Fala.

— O bebê vai ocupar o quarto que era meu?

Carlos virou para o filho. Pedro estava olhando para a tela, mas a mandíbula dele estava tensa.

— Não. O bebê vai dormir no quarto da gente nos primeiros meses. Depois a gente vai usar o escritório.

— Mas o escritório é pequeno.

— A gente vai adaptar.

Pedro ficou em silêncio. Os dedos dele tamborilavam no joelho, um ritmo nervoso.

— E quando ele vier pra cá, eu vou continuar vindo?

A pergunta pareceu simples. Mas Carlos sentiu o peso dela no peito. Pedro tinha quatorze anos. A vida dele já tinha mudado quando os pais se separaram. Agora a notícia de um meio-irmão mexia com algo que ele não sabia nomear.

— Claro que vai. Esse é seu lugar também.

— Mas vai ter um bebê chorando a noite inteira.

— Vai. — Carlos riu. — E a gente vai ficar sem dormir. Você vai poder reclamar com a gente.

Pedro virou o rosto. Os olhos dele estavam vermelhos.

— Eu não tô com ciúme — ele disse. A voz falhou na última palavra.

Carlos não falou nada. Levantou, sentou no sofá ao lado do filho. Colocou o braço no ombro dele. O ombro de Pedro estava mais largo do que da última vez que ele tinha reparado.

— Você não precisa estar com ciúme — Carlos disse. — Você é meu filho mais velho. Isso não muda com a chegada de ninguém.

— Mas o bebê vai precisar mais de você.

— Vai precisar de coisas diferentes. De mim de um jeito diferente. Quando você nasceu, eu tinha vinte anos e não sabia o que tava fazendo. — Ele apertou o ombro do filho. — Agora eu sei um pouco mais. E uma coisa que eu aprendi é que o amor não se divide. Ele se multiplica.

Pedro ficou quieto. Passou a mão no nariz. Fungou.

— Promete que não vai mudar as coisas aqui?

— Prometo que a gente vai conversar sobre cada mudança antes de fazer. Você vai ter voz.

— Minha voz conta?

— Conta mais do que a de qualquer outra pessoa. Você é o irmão mais velho.

Pedro olhou para ele. Os olhos castanhos, iguais aos do pai. Um silêncio.

— Tá bom — ele disse.

— E você quer ajudar a montar o berço?

— Posso?

— Vai ser seu primeiro trabalho como irmão mais velho.

Pedro sorriu. Um sorriso pequeno, ainda meio desconfiado, mas verdadeiro. O sol entrava pela janela, iluminando os dois no sofá. Da cozinha, Luísa apareceu com dois copos de suco. Parou na porta, viu os dois juntos, e o sorriso dela foi maior do que o sol lá fora.

*Continua em: livreto-173.md — Incluir avós na educação*