A xícara de café estava na metade. Luísa e Dona Lúcia estavam sentadas na mesa da cozinha, o sol da manhã entrando pela janela, a fruteira cheia de bananas e maçãs entre as duas.
Dona Lúcia tinha vindo cedo. Disse que era para ajudar, mas Luísa sabia que era para ver como as coisas estavam. Os olhos dela percorriam a cozinha — o escorredor de pratos, a geladeira cheia de ímãs, o calendário na parede.
— A senhora quer mais café? — Luísa perguntou.
— Quero. Mas deixo a senhora fazer, que o meu sai doce demais.
Luísa levantou, pegou a garrafa térmica. Serviu as duas. O café subiu em vapor quente.
— Dona Lúcia — Luísa começou, sentando de novo. — Eu queria conversar sobre uma coisa.
A sogra ergueu a xícara, o olho atento.
— Pode falar.
— A senhora vai ser avó. E a gente tá muito feliz com isso. — Luísa segurou a xícara com as duas mãos. — Mas eu quero que a gente se entenda sobre os papéis.
— Que papéis?
— O que é papel de avó. O que é papel de mãe.
O silêncio durou o tempo de um gole de café. Dona Lúcia colocou a xícara na mesa. O barulho da porcelana contra a madeira foi suave.
— Tô ouvindo.
— A senhora tem experiência. A senhora criou três filhos, sabe das coisas. A gente vai precisar da senhora. — Luísa fez uma pausa. — Mas as decisões finais são minhas e do Carlos. Não é porque a senhora acha melhor dar banho numa temperatura que a gente vai fazer igual.
— Eu nunca disse que vocês tinham que fazer igual.
— Eu sei. — Luísa inclinou o corpo para frente. — Mas a senhora já deu umas sugestões que pareciam mais instruções.
Dona Lúcia ficou quieta. Olhou para a janela, para a luz na cortina.
— Pode ser que eu tenha feito isso sem perceber — ela disse. A voz estava mais baixa. — É que quando a gente cria os filhos, a gente se acostuma a decidir. Depois eles crescem, e a gente não decide mais nada.
— A senhora ainda decide. Só que sobre outras coisas.
— Que coisas?
— A senhora decide o que fazer quando o bebê passar o fim de semana na sua casa. Decide que comida vai fazer, que história vai contar, que brinquedo vai comprar. — Luísa sorriu. — Decide se vai dar docinho escondido ou não.
Dona Lúcia riu.
— Esse eu já decidi. Vou dar.
— Então tá. — Luísa levantou a xícara. — No mais, a gente conversa antes de decidir. Mas a palavra final é nossa. A senhora aceita?
Dona Lúcia pegou a xícara dela também. O gesto era devagar, pensado.
— Aceito.
— E a senhora pode ajudar com o que a senhora sabe melhor.
— O quê?
— Contar como foi com o Carlos. Que tipo de bebê ele foi. O que funcionou. A senhora é a única pessoa que pode contar isso.
Dona Lúcia ficou em silêncio. Os olhos dela brilharam um pouco.
— Ele foi um bebê fácil — ela disse. — Dormia a noite inteira com três meses. Mas era teimoso. Se não queria comer, não abria a boca nem se ameaçasse.
Luísa riu.
— Isso explica tanta coisa.
As duas riram juntas. O café na xícara estava no ponto de ser bebido. A conversa tinha sido mais fácil do que Luísa imaginava.
*Continua em: livreto-172.md — Ciúme do enteado (Pedro)*