A cozinha estava quente. O cheiro de canja ainda pairava no ar, misturado com café passado na hora. Dona Lúcia mexia a colher no bule, o avental amarrado na cintura.
— E a alimentação, como vai ser? — ela perguntou, sem olhar para Luísa. A pergunta vinha num tom de quem já tinha a resposta na cabeça.
— A gente vai fazer papinha natural. Nada de industrializado — Luísa respondeu. Estava sentada à mesa, os dedos em volta da caneca de chá.
— Hum. — Dona Lúcia fez um som. Não era um som de concordância. — Minha mãe sempre fez caldinho de feijão. Passava na peneira. Meus filhos cresceram fortes.
— Hoje em dia tem outras recomendações, Dona Lúcia.
A sogra parou de mexer o bule. O silêncio na cozinha era só o barulho do fio do café caindo na garrafa térmica.
— Eu sei. Eu só tô dizendo que o que é natural sempre funcionou.
Luísa respirou fundo. Lembrou da conversa com a pedagoga. *Vocês são a referência principal do bebê.*
— Eu sei que funcionou — Luísa disse, a voz calma. — E eu confio que a senhora criou o Carlos muito bem. Mas a gente quer tentar do nosso jeito. A senhora entende?
Dona Lúcia virou. Olhou para Luísa. Os olhos dela eram parecidos com os do Carlos — castanhos, expressivos.
— Claro que entendo. — Ela ajeitou o avental. — Mas vocês vão precisar de ajuda. E quem ajuda também opina.
— Ajuda é bem-vinda. Opinião a gente ouve, mas quem decide somos nós.
As palavras saíram firmes, sem agressividade. Luísa segurou a caneca com as duas mãos, o chá morno passando o calor para os dedos.
Dona Lúcia ficou em silêncio uns segundos. Depois pegou a garrafa térmica, serviu o café numa xícara, sentou à mesa em frente a Luísa.
— Vou te falar uma coisa — ela disse. — Quando o Carlos nasceu, a minha sogra queria dar banho nele todo dia com água morna e sabão de coco. Eu queria dar banho dia sim, dia não, com sabonete neutro. A gente quase brigou.
Luísa ergueu as sobrancelhas.
— O que a senhora fez?
— Falei a mesma coisa que você falou agora. — Dona Lúcia sorriu, um sorriso pequeno. — Que a decisão era minha. Ela não gostou. Mas depois entendeu.
O silêncio entre as duas era diferente agora. Mais leve.
— A senhora pode ajudar a gente — Luísa disse. — A senhora conhece o Carlos melhor do que ninguém. Sabe o que funcionou com ele. A gente pode aprender junto.
Dona Lúcia pegou a xícara, deu um gole de café.
— Pode deixar. — Ela apontou a colher para Luísa. — Mas se vocês derem suco antes dos seis meses, eu vou chiar.
Luísa riu.
— Combinado.
O sol da tarde entrava pela janela da cozinha. O café passado, a canja na panela, as duas mulheres sentadas à mesa. Ainda tinha arestas para aparar, mas a cozinha estava em paz.
*Continua em: livreto-170.md — Incluir pais na educação dos netos*