O telefone estava na mesa da sala, virado para cima, a tela preta. Carlos olhava para ele como se fosse uma granada sem o pino.
— Você já ligou? — Luísa apareceu atrás dele, secando as mãos no avental.
— Ainda não.
— Faz duas horas que você tá olhando pro telefone.
— Tô pensando na melhor hora.
Luísa sentou no braço do sofá. O cheiro de almoço vinha da cozinha — arroz, feijão, alguma coisa refogando.
— Qualquer hora é hora, Carlos. Eles vão ficar felizes.
— Eu sei. — Ele passou a mão na nuca. — Mas não é só falar. É como falar. Minha mãe vai chorar. Meu pai… bem, meu pai vai ficar quieto, mas depois vai ligar pra todo mundo.
Luísa riu baixinho.
— Então você já sabe a reação. O que te trava?
Carlos ficou pensando. A luz do meio-dia batia no chão da sala, nos pés descalços dele.
— É que… — ele hesitou. — É a primeira vez que eu conto uma notícia dessas, sabia? Quando o Pedro nasceu, eu tinha vinte anos. Eu mal sabia o que tava fazendo. Liguei pro meu pai de um orelhão. Foi rápido, seco, sem graça.
— E agora?
— Agora é diferente. — Ele olhou para a barriga de Luísa. Ainda pequena, mal aparecendo debaixo da camiseta larga. — Agora é uma família de verdade. Uma casa. Um plano.
Luísa colocou a mão no ombro dele.
— Então conta como se fosse uma notícia boa. Porque é.
Carlos pegou o telefone. O aparelho estava frio na mão. Ele apertou o número da mãe. O telefone chamou uma, duas vezes.
— Alô? — a voz de Dona Lúcia atendeu.
— Mãe? — Carlos respirou. — Senta.
— Meu Deus, o que foi?
— Senta primeiro.
Ele ouviu o barulho de uma cadeira arrastando.
— Tô sentada. Fala.
— A Luísa tá grávida.
Do outro lado da linha, silêncio. Depois um soluço. Depois uma risada molhada de lágrimas.
— É mentira — Dona Lúcia disse, a voz tremendo.
— É verdade. Uns três meses.
— Ai, meu Deus do céu. — Ela comeu a frase. — Ai, meu Deus. Eu vou ser avó de novo. O Pedro vai ter um irmãozinho. Carlos, eu tô chorando.
Carlos riu. Sentiu o peito quente.
— Eu sei, mãe.
— E a Luísa? Ela tá bem? Tá passando bem? Tá com enjoo?
— Tá bem. Tá com um pouco de enjoo de manhã, mas passa.
— Manda ela comer bolacha salgada antes de levantar. E não deixar o estômago ficar vazio.
— Vou mandar.
— Quando eu vou ver vocês? — Dona Lúcia perguntou. — Posso ir hoje?
— Calma, mãe. Não precisa vir hoje.
— Preciso sim. Vou levar uma canja. Grávida precisa de canja.
Carlos desligou. Olhou para Luísa. Os olhos dela estavam marejados.
— Ela vai vir hoje — ele disse.
— Eu ouvi.
— E vai trazer canja.
Luísa riu. Passou a mão na barriga.
— Bem-vindo, pequeno. Sua avó já tá a caminho.
A campainha tocou. Toby latiu da cozinha. Carlos foi abrir a porta — já sabia que não era a mãe, ainda era cedo, mas o coração estava cheio de um jeito que ele não sentia desde o nascimento do Pedro.
*Continua em: livreto-169.md — Pais que opinam sobre criação dos netos*