O sol da manhã entrava pela janela do consultório, iluminando a mesa de madeira clara. Luísa estava sentada numa cadeira confortável, as mãos no colo, a aliança brilhando. Do outro lado, uma mulher de cabelos grisalhos e óculos finos — a pedagoga — folheava um caderno.
— Conta pra mim como está sendo — ela disse.
Luísa respirou fundo. Olhou para o lado, para a janela, para as folhas de uma planta pendurada. As palavras estavam todas na ponta da língua, mas organizar elas em voz alta era mais difícil do que parecia.
— A gente tá aprendendo — Luísa começou. — Cada dia é uma coisa nova. Mas tem hora que eu não sei se tô fazendo certo.
A pedagoga inclinou a cabeça. Não falou nada.
— O bebê acorda de madrugada. Eu levanto, dou de mamar, coloco pra dormir. Mas quando ele chora de novo vinte minutos depois, eu fico sem saber se é fome, se é cólica, se é só dengo. — Luísa riu, sem graça. — E o Carlos também não sabe. A gente se olha no escuro do quarto, os dois sem dormir, cada um esperando o outro ter a resposta.
— E quem tem?
— Ninguém. A gente vai tentando. Uma hora funciona.
A pedagoga anotou alguma coisa. Não era uma anotação de julgamento — era de quem estava ouvindo de verdade.
— Isso é mais comum do que você imagina — ela disse. — Os pais chegam aqui achando que vão receber um manual. Mas não é assim. Cada bebê é um.
Luísa sentiu os ombros relaxarem um pouco.
— O que mais te preocupa? — a pedagoga perguntou.
— A criação. O que a gente passa pra ele. Os valores, as regras, os limites. Eu quero que ele cresça sabendo o que é certo, mas não quero ser dura demais. — Ela parou. — E tem a família também. Todo mundo tem opinião. Minha sogra, minha mãe, os avós. Cada um acha que sabe o melhor.
A pedagoga fechou o caderno.
— Sabe qual é a primeira coisa que eu ensino pros pais?
Luísa balançou a cabeça.
— Que não existe um manual. Mas existem ferramentas. E a primeira ferramenta é saber que vocês são a referência principal do bebê. Não a avó, não a tia, não a vizinha. Vocês. — Ela apontou para Luísa. — Vocês vão errar, vão acertar, vão aprender. E tá tudo bem.
Luísa ficou em silêncio. A frase ecoou dentro dela como uma música que ela não sabia que precisava ouvir.
— Como funciona o acompanhamento? — ela perguntou depois.
— A gente se encontra uma vez por semana. Conversamos sobre os desafios, as dúvidas, o que aconteceu. Eu trago leituras, exercícios de observação, estratégias de comunicação. Mas o principal é ouvir vocês.
A pedagoga sorriu.
— Pais que se perguntam se estão fazendo certo já estão fazendo mais do que muitos.
Luísa olhou para a aliança no dedo. O brilho do sol refletindo no metal.
— O Carlos pode vir também? — ela perguntou.
— Pode. Na verdade, é melhor se vierem juntos.
Luísa anotou o endereço na agenda. Guardou na bolsa. Quando saiu do consultório, a rua estava cheia de sol e o ar tinha cheiro de pão da padaria da esquina. Ela caminhou com um passo mais leve do que quando entrou.
*Continua em: livreto-168.md — Contar sobre gravidez para os pais*