A noite estava clara. Carlos sentou na varanda, o café na mão, o silêncio da rua.
Dentro de casa, o Miguel dormia. A Luísa lia na cama. O Toby roncava no sofá.
Era a mesma varanda onde ele tinha sentado tantas vezes. Sozinho, depois da separação. Preocupado, quando o Pedro era pequeno. Ansioso, na espera do Miguel.
Agora ele estava aqui. Pai de dois. Marido. Adulto.
Ele pensou na Dona Marta. As plantas dela na sacada vazia. O sorriso quando ele passava. A forma como ela segurava o Miguel no colo, dizendo que ele era o neto que ela não teve.
Ela tinha partido. Mas o Miguel falava dela como se ela ainda estivesse regando as plantas.
— Pai, a Dona Marta gostava de flor?
— Gostava.
— Então eu vou plantar uma pra ela.
— Planta.
— No vaso que era dela.
— Pode.
E no sábado, eles plantaram. Carlos segurou o vaso. Miguel colocou a terra. Luísa regou.
Três pessoas em volta de um vaso que foi de uma vizinha que virou família.
— Pronto — Miguel disse.
— Pronto.
— Ela vai gostar?
— Vai.
— Como você sabe?
— Porque flor não precisa de muito. Só de terra, água e cuidado. — Carlos olhou pro filho. — E você tem cuidado.
Miguel sorriu. A terra nos dedos. O sol na cara.
Carlos tomou o café. A xícara vazia na mão.
A varanda estava quieta. A planta nova no canto. As folhas verdes no escuro.
Ele pensou no ciclo. Seu pai que se foi. Ele que ficou. O Miguel que chegou.
— Carlos? — A voz da Luísa da porta.
— Tô aqui.
— Vem dormir.
— Já vou.
Ela sentou do lado. Encostou a cabeça no ombro dele.
— O que você tá pensando?
— Na vida. — Ele apontou a planta. — Na Dona Marta. No Miguel.
— Ela ia gostar de saber que a planta tá crescendo.
— Ia.
— Ia gostar de saber que o Miguel lembra dela.
— Também.
— E que a gente lembra também.
Ele apertou a mão dela.
— Sabe o que eu aprendi?
— O quê?
— Que ser pai não é só sobre criar. — Ele olhou pro céu. — É sobre continuar. O que a gente recebeu, a gente passa. O que a gente aprendeu, a gente ensina.
— E o que a gente perdeu?
— A gente guarda. — Ele virou o rosto pra ela. — Mas não pesa. Vira lembrança. Vira planta. Vira história que a gente conta.
— E o amor?
— O amor é o que fica. — Ele segurou o rosto dela. — O amor é o que faz a gente acordar de manhã. O amor é o que faz a gente continuar mesmo quando o corpo cansa.
— Você tá filosófico hoje.
— Tô pai.
Ela riu.
— Vem dormir, pai filosófico.
— Vou.
Ele levantou. Olhou a planta mais uma vez. As folhas verdes no escuro.
Dentro de casa, o quarto estava silencioso. O Miguel dormia de bruços, o braço esticado, a boca entreaberta.
Carlos ajeitou o cobertor. Passou a mão no cabelo fino.
— Boa noite, filho.
— Boa noite — ele murmurou, dormindo.
Carlos apagou o abajur.
No corredor, a mão da Luísa esperou a dele. Eles foram juntos pro quarto.
A planta crescia na varanda. O ciclo continuava.
*Fim da cena: bebê crescendo — continua em: (próxima cena)*