O berro veio do quarto. Não era choro de machucado — era berro de birra.
— MIGUEL! — Carlos gritou da sala.
— Deixa que eu vou — Luísa disse.
— Não. Ele precisa saber que não responde berro com berro. — Ela levantou. — Vai você.
— Eu?
— Você.
Carlos foi. Luísa ficou ouvindo da porta.
— Miguel. — A voz dele calma. — O que foi?
— O carrinho quebrou!
— Como quebrou?
— Eu joguei na parede!
— Por quê?
— Porque eu tava com raiva!
Carlos ficou em silêncio.
— Senta aqui.
Escutou o barulho do corpo sentando na cama.
— Jogar carrinho na parede não resolve a raiva.
— Eu sei.
— Então por que fez?
— Porque eu não sabia o que fazer.
— O que você podia fazer em vez de jogar?
— Respirar?
— Podia. Que mais?
— Falar que tava com raiva?
— Podia. Que mais?
— Pedir ajuda?
— Podia. — A voz do Carlos mais baixa. — Você fez a coisa errada. Mas sabe o que fazer da próxima. Isso já é um começo.
— O carrinho quebrou.
— A gente cola.
— E se não colar?
— Aí você aprende que quebrar as coisas custa.
— Custa?
— Custa o carrinho.
Miguel ficou em silêncio.
— Pai.
— Fala.
— Desculpa.
— Tudo bem.
— Não é tudo bem.
— Por quê?
— Porque eu quebrei o carrinho de propósito.
— E isso foi errado.
— Foi.
— Mas você já sabe que foi errado. Agora a gente segue em frente.
— Segue?
— Segue.
Luísa afastou da porta. Voltou pra sala.
Carlos chegou depois.
— E aí? — ela perguntou.
— Resolvido.
— Como?
— Ele quebrou o carrinho de propósito. Reconheceu. Vamos colar.
— Só?
— Por enquanto, só.
— E se repetir?
— Aí a consequência é maior.
— Maior como?
— Uma semana sem videogame.
— E a gente sustenta?
— Sustenta. Juntos.
— Juntos?
— Juntos. — Ele sentou. — Não adianta um dizer sim e o outro dizer não.
— A gente precisa combinar antes.
— A gente precisa combinar tudo.
— Mesmo as pequenas coisas?
— Principalmente as pequenas.
Ela pegou a mão dele.
— Combinado.
— Combinado.
— Da próxima vez, antes de chamar, a gente conversa.
— Conversa.
— Define a consequência.
— Define.
— E aplica junto.
— Junto.
O silêncio ficou. O quarto tinha ficado quieto.
— Miguel dormiu? — Luísa perguntou.
— Dormiu. Chorou um pouco. Depois apagou.
— Cansa.
— Cansa. — Ele apertou a mão dela. — Mas a gente tá aprendendo.
— A gente?
— A gente. Juntos.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
Do lado de fora, a noite caía. Mais um dia. Mais uma lição.
Eles estavam aprendendo a ser pais. Juntos.
*Continua em: livreto-166.md — Carlos — FECHO: luto, amor, renovação — ciclo de pais*