O almoço de domingo na casa da Dona Lúcia já estava no café quando o tio João soltou a pergunta:
— E aí, casal, quando vem o segundo?
Luísa segurou a xícara. Carlos olhou pro prato.
— Tio — ela disse —, a gente ainda tá decidindo.
— Decidindo? O Miguel já tem três anos. Não pode ficar filho único.
— Pode — ela respondeu.
— Não pode. Filho único fica mimado.
— Tio, a gente não vai decidir baseado no que os outros acham.
O tio franziu a testa.
— Não é achar. É fato.
— Fato é que cada família decide do seu jeito.
Ele abriu a boca pra responder, mas a Dona Lúcia chegou na frente.
— João, deixa eles. — Ela colocou a bandeja de bolo na mesa. — Não é da nossa conta.
— Como não?
— Não é. — Ela cortou um pedaço de bolo. — Se eles quiserem ter outro, vão ter. Se não quiserem, não vão.
— Mas…
— João. — A voz dela não subiu, mas fechou. — Bolo?
O tio pegou o bolo. Calou a boca.
Luísa olhou pra sogra. A Dona Lúcia piscou.
Depois do café, na cozinha, Luísa lavava a louça quando a sogra chegou.
— Obrigada — Luísa disse.
— Pelo quê?
— Por cortar.
— Ele é chato. Mas não é mau.
— Eu sei.
— Você não precisa se justificar pra ele.
— Eu sei.
— Nem pra ninguém.
Luísa secou as mãos.
— Mas a família inteira pergunta.
— A família inteira pergunta porque não tem o que fazer. — Dona Lúcia pegou um pano. — Se você responder uma vez com firmeza, eles param.
— Já respondi.
— Responde de novo. Quantas vezes precisar.
— Cansa.
— Cansa. — Dona Lúcia secou um prato. — Mas cansa mais viver a vida dos outros do que a sua.
Luísa ficou em silêncio.
— Você quer outro filho? — a sogra perguntou.
— Não sei.
— Então não sabe. É resposta.
— É?
— É. Melhor não saber e esperar do que ter por pressão e se arrepender.
Luísa olhou pra ela. A Dona Lúcia, que no começo da gravidez tinha sido tão ansiosa com os palpites, agora era a voz mais sensata.
— Você mudou, Dona Lúcia.
— Mudei não. — Ela pendurou o pano. — Aprendi que ser sogra é calar a boca na hora certa. E falar na hora certa também.
— Essa hora era de calar?
— Era de defender. — Ela sorriu. — Minha nora não vai ser pressionada na minha casa.
Luísa abraçou ela.
— Obrigada.
— De nada.
Na volta pra casa, no carro, Luísa contou pro Carlos.
— Sua mãe me defendeu.
— Ela? Sério?
— Sério. Falou pro tio João calar a boca.
— Nunca vi ela fazer isso.
— Pois fez.
— Ela gosta de você.
— Eu sei.
— E você?
— Também gosto dela.
Carlos sorriu. Ligou o carro.
A pressão da família continuava. Mas com a sogra do lado, pesava menos.
*Continua em: livreto-164.md — Carlos — Educação dos filhos*