O jantar tinha acabado. O Miguel já dormia. A louça estava na pia. Carlos e Luísa no sofá, o Toby deitado no pé.
— A Clarinha vai ser mãe — Carlos disse.
— Você já falou.
— E o Beto?
— O Beto?
— O Beto falou que vai ter outro.
— Também?
— Também.
Luísa abaixou o livro.
— Você tá comparando?
— Não. — Ele passou a mão no cabelo. — Só pensando.
— Pensando?
— Se a gente vai ter outro.
Ela fechou o livro. Colocou no colo.
— E o que você pensa?
— Penso que quero.
— Quer?
— Quero. — Ele virou o corpo pra ela. — Mas depende de você.
— Depende.
— E do orçamento.
— E da disposição.
— E da idade.
— E da carreira.
Ela riu.
— A lista é grande.
— É. — Ele riu também. — Mas a pergunta principal é se você quer.
— E você?
— Eu perguntei primeiro.
— Covarde.
— Estratégico.
Ela encostou a cabeça no sofá.
— Eu penso. — Ela olhou pro teto. — Penso e não chego a uma resposta.
— Por quê?
— Porque o Miguel já demanda muito. E eu tô no melhor momento da carreira. E a gente mal dá conta da rotina.
— Mas?
— Mas eu sinto falta.
— De quê?
— De um bebê no colo. Do cheiro. Do peso. Daquela fase que passa tão rápido.
Ele segurou a mão dela.
— Eu também sinto.
— Mas ter outro é recomeçar. Noite mal dormida. Fralda. Cólica.
— A gente já sabe o que fazer.
— Saber a gente sabe. — Ela apertou a mão dele. — Mas fazer de novo cansa.
— Cansa.
— E se a gente não tiver energia?
— A gente se vira.
— E se a gente se perder no meio?
— A gente se encontra de novo.
Ela ficou em silêncio.
— Você responde com tanta certeza.
— Não tenho certeza. — Ele inclinou a cabeça. — Mas tenho vontade. E acho que vontade é o começo.
— E se a vontade passar?
— Aí a gente não tem.
— Simples?
— Sim. — Ele apertou a mão dela. — A gente não é obrigado a nada. Se vier, vem. Se não vier, a gente fica com o Miguel e o Toby e a vida que a gente construiu.
— E você ficaria satisfeito?
— Satisfeito?
— Sem outro filho?
Ele pensou.
— Ficaria. — A voz dele saiu baixa. — Porque o que importa não é o número. É a gente.
Ela olhou pra ele. O olho dele no olho dela.
— Então a gente espera.
— Espera.
— E vê no que dá.
— Vê.
O Toby levantou, rodou, deitou de novo.
A conversa não tinha terminado. Mas tinha começado. E isso era o mais difícil.
*Continua em: livreto-163.md — Luísa — Pressão familiar para ter filhos*