Como tomar a decisão de ter filhos?

Luísa

O escritório estava vazio. A Camila tinha ido embora mais cedo. Luísa ficou, o monitor azul iluminando o rosto.

No celular, a mensagem da prima Lorena:

*Não sei se quero ter filho. Como você soube que queria?*

Luísa leu três vezes. Guardou o celular. Pegou de novo.

Não era uma pergunta simples.

Ela olhou pra parede. Os quadros, os pôsteres de design, a caneca BOSS na mesa.

Como ela soube?

Não soube. Não teve um estalo. Não foi como acender a luz.

Foi devagar.

Ela lembrou de quando conheceu o Pedro pela primeira vez. Um menino magro, cabelo bagunçado, olho desconfiado. Ela tinha ido na casa do Carlos, e o Pedro estava no sofá, jogando videogame.

— Oi — ela disse.

— Oi — ele respondeu, sem tirar o olho da tela.

Ela sentou do lado. Ficou quieta. Assistiu ele jogar.

— Você joga? — ele perguntou depois de um tempo.

— Não.

— Quer aprender?

— Quero.

Ele passou o controle. Ela perdeu em trinta segundos.

— Você é ruim — ele disse.

— Sou.

Ele riu. O primeiro sorriso.

Naquela noite, ela contou pro Carlos:

— Seu filho é legal.

— Ele é.

— Acho que a gente pode ser amigo.

— Vocês já são. Você só não percebeu.

Luísa voltou ao presente. A tela do celular tinha apagado.

Ela destravou. Respondeu a Lorena:

*Não soube. Descobri.*

*Descobrir como?*

*Convivendo. Com o Pedro, com o Miguel. Não foi um dia que eu acordei e quis ser mãe. Foi uma construção.*

*E se eu nunca descobrir?*

*Não tem problema. Tem gente que descobre que não quer. E isso também é resposta.*

*Mas e o arrependimento?*

*Arrependimento é possível dos dois lados. O segredo não é evitar o arrependimento. É fazer uma escolha consciente.*

Lorena leu. Demorou pra responder.

*Obrigada.*

Luísa guardou o celular.

Olhou pra fora. O prédio do lado, as luzes acesas. Gente vivendo. Gente escolhendo.

Ela pensou na própria escolha. Não tinha sido dramática. Tinha sido calma. Como um rio que encontra o mar.

Ela não sabia se queria ser mãe. Mas sabia que queria estar com Carlos. E que queria ver o Pedro crescer. E que, quando o Miguel chegou, ela não teve dúvida.

A dúvida veio antes. Depois que ele nasceu, só veio o fazer.

Ela pegou o celular de novo. Mandou outra mensagem:

*Se quiser, a gente pode tomar um café essa semana. Conversar.*

*Quero.*

*Então marcamos.*

Guardou o celular. Fechou o notebook.

A decisão de ter filho era a mais particular de todas. Ninguém podia responder por ela. Mas dava pra caminhar junto até a resposta chegar.

*Continua em: livreto-162.md — Carlos — Conversar sobre filhos com parceiro*