O portão da escola era azul. Azul claro, como a camisa do Carlos. As crianças entravam em fila, mochila nas costas, uniforme impecável.
Carlos segurava a mão do Miguel. Do lado, uma mãe comentava com a outra sobre o aumento da mensalidade.
— Quinze por cento — ela dizia. — Todo ano é isso.
— Ano que vem vou ter que mudar ele de escola — a outra respondia.
Carlos engoliu seco.
Na reunião de pais, a diretora falou sobre os investimentos: laboratório novo, quadra coberta, material didático bilíngue.
— A educação dos nossos alunos é nosso compromisso — ela disse.
— E o bolso dos pais? — alguém murmurou.
Carlos riu por dentro. Mas não riu por fora.
Quando chegou em casa, abriu a planilha. Ensino do Miguel: três mil por mês. Curso do Pedro: seiscentos. Material, uniforme, passeios: mais quinhentos.
— Quanto dá no ano? — Luísa perguntou.
— Quarenta e nove mil.
— Só de escola?
— Só.
— E a faculdade?
— Essa nem calculei.
Ele fechou a planilha.
— A gente precisa de um plano.
— A gente precisa de um milagre.
— Milagre não paga conta. — Ele abriu de novo. — A gente precisa investir.
— Investir?
— Guardar dinheiro todo mês pra educação. Não só pagar a mensalidade.
— Quanto?
— Dois mil por mês. Num fundo.
— Dois mil?
— Se a gente guardar desde agora, em quinze anos o Miguel tem faculdade paga.
Ela sentou.
— E se a gente precisar do dinheiro?
— Aí não mexe. Educação é prioridade.
— E as outras contas?
— A gente ajusta.
Ela ficou em silêncio.
— Você parece assustado.
— Tô. — Ele passou a mão na nuca. — A educação do Pedro eu não planejei. Pagava conforme dava. Agora tô vendo o preço.
— E o Pedro?
— Ele quer fazer faculdade. Mas eu não tenho reserva.
— A gente pode começar agora.
— Pro Pedro?
— Pra ele também.
Carlos olhou pra ela.
— Você faria isso?
— Ele é meu filho também. — Ela segurou a mão dele. — A gente começa hoje. Junta o que der. Melhor tarde do que nunca.
— E se não der tempo?
— Dá. Pode não ser a faculdade dos sonhos. Mas vai ser uma faculdade.
Ele apertou a mão dela.
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Por incluir ele.
— Ele sempre esteve incluído. — Ela levantou. — Você que não percebeu.
Ele ficou sentado. A planilha aberta. Os números na tela.
Educação era o investimento mais caro. Mas também o único que ninguém podia tirar.
Naquela noite, ele criou uma nova categoria na planilha:
*Fundo Educação — Miguel e Pedro.*
*Todo dia 5: R$ 2.000.*
Fechou o laptop. Olhou pro teto.
Começava ali.
*Continua em: livreto-161.md — Luísa — Decidir ter filhos (reflexão)*